Natal pede morada: quando a cidade escolhe luzes em vez de vidas

Por Victória Santana

Enquanto a cidade se enfeita com luzes, árvores cenográficas e cenários instagramáveis, milhares de pessoas seguem vivendo no escuro da negação de direitos básicos. Em Petrolina, o Natal mais uma vez escancara uma ferida antiga: a desigualdade não nasce do acaso, ela é construída, é fruto de escolhas políticas feitas ao longo do tempo, marcadas por uma oligarquia que governa o município há cerca de 80 anos, priorizando aparência, marketing e espetáculo, enquanto nega ao povo o direito de viver com dignidade.

No último mês, os veículos de comunicação locais foram incendiados com denúncias de que a Prefeitura gastou quase R$6 milhões em decoração natalina. Ao mesmo tempo, centenas de famílias seguem morando em barracos de lona, madeira e restos de material de construção, sem saneamento, sem água, sem banheiro, sem segurança. Famílias inteiras tentando existir onde o poder público escolheu não enxergar, sobrevivendo em condições indignas, empurradas para a invisibilidade.

Não se trata de ser contra o Natal. Pelo contrário. Trata-se de perguntar, com honestidade e coragem:
que Natal é esse? Para quem ele existe?

O Natal que celebra o nascimento de Cristo não é o da ostentação. É o da partilha. É o do cuidado com os pobres, com os excluídos, com quem não tem onde repousar o corpo depois de trabalhar seis dias, em uma jornada de trabalho escrava. É o Natal de Maria e José, trabalhadores, sem teto, periféricos. E uma cidade que se diz moderna, desenvolvida e próspera não pode aceitar como normal que crianças durmam em barracos, que mães criem seus filhos em áreas sem qualquer infraestrutura, que trabalhadores e trabalhadoras vivam sob a constante ameaça do despejo, da chuva, do abandono.

Petrolina não possui um programa municipal de habitação com recursos próprios capaz de enfrentar seu déficit habitacional. Depende de programas federais históricos, que não alcançam a todos e que, muitas vezes, são mal executados. O resultado está diante dos nossos olhos: o crescimento das ocupações, a criminalização da pobreza e a naturalização da extrema pobreza, tratados como se não fosse uma consequência de decisões políticas.

É preciso dizer com todas as letras, sem rodeios nem maquiagem: falta vontade política! Se há dinheiro público para milhões em decoração, há dinheiro para iniciar a construção de casas populares. O que falta não é recurso. Falta prioridade com a vida de quem mais precisa. Falta compreender que cidade não é vitrine. Cidade é gente, é corpo, é história, é vida.

Esse descaso com a moradia não é neutro. Ele tem cor, território e classe social. Em Petrolina, a ausência de políticas habitacionais atinge majoritariamente a população negra e periférica, que historicamente convivem com áreas degradadas, próximas ao lixo, sem saneamento, sem água, sem arborização e sem qualquer cuidado do poder público. Isso tem nome: racismo ambiental. É quando o Estado escolhe investir em projetos de embelezamento, como a ampliação da orla, já na construção da Orla 3, com paisagismo, iluminação e arborização, enquanto mantém famílias negras vivendo em barracos, expostas à extrema pobreza, à contaminação e à insegurança. A cidade cresce para poucos e empurra muitos para a sobrevivência precária, reforçando um modelo urbano excludente, onde o desenvolvimento nunca chega para quem mais precisa. O que Mbembe chamaria de necropolítica: a política que decide que merece viver e quem deve morrer. Em Petrolina, o segundo grupo são de homens, mulheres e crianças negras da periferia.

Em meio ao silêncio conveniente de uma gestão que governa para poucos, a atuação do vereador Professor Gilmar se destaca pela coragem de enfrentar privilégios históricos e denunciar desigualdades profundas. Sua voz tem sido uma das poucas na Câmara Municipal a ecoar, de forma firme e constante, em defesa da justiça social, do direito à moradia, da dignidade das periferias e da vida do povo negro e trabalhador. Ao longo dos anos, Gilmar não se limitou a discursos: esteve nos territórios, caminhou nas ocupações, ouviu as famílias, enfrentou interesses poderosos e colocou seu mandato a serviço de quem nunca teve vez. Em uma cidade marcada pela concentração de poder e pela exclusão social, essa postura não é comum, é política feita com compromisso, coerência e lado bem definido.

Levar a campanha “Natal Pede Morada” para o centro da cidade, ao lado da Catedral, exatamente onde está montada a principal decoração de Natal é disputar consciências. É provocar incômodo, para lembrar que, enquanto o Prefeito divulga sorridente o milionário “natal da neve”, que simula o polo-norte no sertão pernambucano, centenas de famílias lutarão para proteger seus filhos das águas que invadirão seus barracos nas próximas chuvas de verão, só que na vida real.

Natal pede morada porque sem casa não há dignidade. Natal pede morada porque a vida do nosso povo seria prioridade para Jesus. Natal pede morada porque uma cidade só é verdadeiramente iluminada quando escolhe cuidar de todas as pessoas, principalmente das que mais precisam.

Se o poder público insiste em não enxergar essa urgência, o povo vai lembrar. E vai cobrar. Porque cidade sem justiça social é só cenário. Cenário montado, caro, artificial, feito para durar pouco. Próximo mês, no natal do Prefeito Simão Durando, as luzes se apagam, a propaganda envelhece, o cenário desmonta. Mas as ocupações seguem. Seguem resistindo, vivendo, lutando, até que a oligarquia que há décadas governa Petrolina seja rompida. E nós seguiremos do lado certo da história: do lado da Vila da Fé, da Vila da Paz, da Vila Palmares, da Vila Sossego. Do lado do povo, do lado dos/as nossas/as, da dignidade e da justiça social.