OS BEZERRA COELHO DE PETROLINA E A ENGENHARIA DO ROUBO

Por Professor Gilmar
Vereador de Petrolina (PT), historiador, e pré-candidato a Deputado Estadual por Pernambuco

 Não é de hoje que a oligarquia Coelho de Petrolina maneja recursos governamentais para engordar seus negócios. Herdeiros de uma tradição patrimonialista onde coronéis usam o poder público em benefício de familiares e apadrinhados, a oligarquia sempre procurou um jeito para se articular local, regional e nacionalmente, tendo em vista a manutenção e ampliação do poder. Do coronel Clementino Coelho (seu Quelê), o patriarca, a Miguel Coelho – seu bisneto com maior importância, prepotência e popularidade na atual cena política petrolinense-, as disputas estão sempre associadas ao fortalecimento do privilégio, tendo no atraso social da população seu fundamento sagrado.

          O Golpe de 1964 foi um assalto à democracia, operado por um conluio de empresários, políticos e militares, junto a setores antidemocráticos da imprensa, os quais utilizaram todos os mecanismos possíveis para influenciar a sociedade a apoiá-los ou silenciá-la. Com alto interesse dos Estados Unidos da América, terra do “Destino Manifesto” do capitalismo selvagem, de setores conservadores do catolicismo, passando por células de evangélicos pentecostais a revistas em quadrinhos, o fascismo ganhou corpo, tendo no lema “Deus, Pátria, Família” o sumo do sumo da hipocrisia social. O principal objetivo era impedir que a classe trabalhadora fosse beneficiada com as chamadas Reformas de Base, propostas pelo governo João Goulart no enfrentamento às desigualdades em diversos setores da sociedade. Caso se efetivassem, o direito de roubar das classes dominantes estaria ameaçado. E nesse contexto os Coelhos estavam lá.  

Quando Nilo Coelho era deputado federal e primeiro-secretário da Mesa Diretora da Câmara, em 1966, prestou-se ao papel de ser “garoto de recado” do ditador Castelo Branco quando aceitou entregar comunicados aos colegas deputados que seriam cassados pela ditadura. Quase apanhou no plenário. Mas ao cumprir o papel de defender o golpe foi beneficiado com diversos espaços que lhe alçaram aos cargo de senador biônico e governador biônico. Ou seja, não foi eleito pelo voto popular, pela vontade do povo, foi agraciado pelas tramas de um golpe cívico-militar. Quem chega no Parque Municipal, que leva o nome da matriarca, Josefa Coelho, vai entender o porque as diversas fotos na entrada do espaço onde aparecem membros da família com os presidentes militares. Daí pra frente os Coelho só souberam engordar no seu patrimônio.

Entre os anos de 1970 e 1980, usando sua influência junto à capital federal para atrair recursos que transformasse o pasto de bode – em um bioma caatinga que não dava pra Coelho -, em fazendas, onde frutas são produzidas ao sabor da ganância elitista e do amargor de milhares de trabalhadores desalmados pelos mais variados processos de alienação, os quais acreditam e até cultuam os Coelhos como “pais da irrigação” e salvadores, já que possuem até um hospital do câncer.

Nas Diretas Já (1984) eles estavam do lado da manutenção do golpe. Com a redemocratização foram obrigados a manejar essa complexa relação entre democracia e autoritarismo, já que a Constituição de 1988 mudou incipientemente os fundamentos e estruturas coloniais que permitem a existência de oligarquias desse tipo, propensa a se aproveitar do bem alheio.

          Do governo Collor (1989-1992) a Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o mundo avança com o neoliberalismo e o Brasil segue atrás. A privatização dos bens públicos é o princípio e consequência de uma complexa cadeia de atrasos sociais. Ao privatizar, a coletividade deixa de ter importância. Para o capitalista, quanto menos coletividade mais exploração, mais precarização, mais lucros, privilégios e poder. O governo FHC, que os Coelhos apoiavam, deixou 33 milhões de pessoas na extrema pobreza.

Os Coelhos perceberam que eram novos tempos, e que o coronelismo precisava ser reciclado. Fernando Bezerra Coelho, neto do velho Quelê, será a grande referência desse novo momento, pela capacidade de desenvolver estratégias e táticas que driblam esquerda, centro e direita, alimentando-se sempre do oportunismo político, da manutenção dos atrasos, para engordar um pouco mais. Dos anos 90 para cá, FBC é o maestro de uma rede medíocre de gente suspeita e inclinada à gatunagem, que o blindam de uma possível prisão. Os filhos vão seguir o mesmo caminho.

De 2003 a 2014, os governos Lula 1 e 2, e os governo Dilma 1 e 2, ambos de coalização partidária, conduzida pelo Partidos dos Trabalhadores, implementaram uma série de mudanças em favor da classe trabalhadora, da população de baixa renda, nunca antes vista na história do país. FBC, para garantir a influência da família no campo democrático, sai do ninho da antiga Arena – base de sustentação da ditadura, (transformada depois no PDS e PFL) e ocupa espaços de partidos de centro-esquerda (PMDB, PPS, PSB). Assim a oligarquia que já dominava a direita, agora passa a dominar o outro lado para confundir ainda mais a população.

Ao longo desse período FBC foi ministro de Dilma. Anos depois se juntou com o que se tem de pior na política brasileira para dar um golpe, derrubar o governo de uma mulher honesta e inocente, e colocar o vice e golpista, Michel Temer, de quem foi beneficiado com a indicação do seu filho, Fernando Filho Coelho para o Ministério de Minas e Energia. Com Bolsonaro, os Bezerra Coelhos contribuíram para que a rapinagem da direita e extrema direita do Congresso Nacional abocanhasse o máximo do orçamento e promovesse um verdadeiro assalto ao governo federal, tendo no orçamento secreto seu principal instrumento. É nesse contexto que, em 2017, Miguel Coelho assume a prefeitura de Petrolina e, de lá pra cá coordena toda espécie de esquemas possíveis, tendo a CODEVASF enquanto receptora de milhões de emendas parlamentares para a pavimentação de centenas de vias no município. A fiscalização federal confirmou denúncias do vereador  Gilmar Santos (PT), que boa parte dessas vias foram mal pavimentadas, sem realização de estudos técnicos adequados, e sem saneamento básico. A maior parte das obras foram executadas pela Liga Engenharia que, em todo o Brasil, prestou seus serviços quase que exclusivamente para a prefeitura dos Bezerra Coelho. Os contratos são de aproximadamente 200 milhões.

 É comum ver em diversos bairros das periferias o esgoto transbordando e deteriorando o asfalto. Agora, com a Operação Vassalos, sabemos que o esgoto das periferias é, na verdade, uma expressão concreta de outro esgoto, o da corrupção, de onde deverão sair das bocas de lobos, ratos, baratas e coelhos. É só ligar os pontos, como está fazendo a Polícia Federal. Talvez por prever isso o deputado federal Fernando Filho tenha se associado a outros parlamentares inimigos do povo para votar em todo tipo de projetos que protegessem bandidos engravatados, como foi o caso da PEC da Blindagem, conhecida popularmente como PEC da “Bandidagem”.

A população de Petrolina que tem dado a maioria dos seus votos para essa turma precisa tomar uma decisão radical sobre o futuro. Do contrário, parafraseando Cazuza, o futuro vai continuar imitando o passado e a Oligarquia Coelho vai continuar operando seu museu de grandes novidades para manter o povo no atraso, fundamento dos seus privilégios.

Fonte: Brasil de Fato