Em discurso na Câmara, Gilmar Santos faz reconhecimento aos ACS e duras críticas à reforma de Bolsonaro contra servidores públicos

“O único projeto que esse governo tem para o país é o de destruição: Destruição das nossas riquezas, dos nossos direitos sociais e agora quer acabar com a qualidade e as condições de vida de servidores e servidoras do nosso país”, ressaltou o edil

Foto: Camila Rodrigues

Um pacote de medidas apresentado por Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, na última terça-feira, (05) intensifica ainda mais o arrocho do governo sobre os servidores públicos, transferindo mais uma vez para a classe trabalhadora a responsabilidade dos déficits na economia, quando na verdade as empresas que tem dívidas enormes com o Estado não são cobradas da mesma forma.

A PEC Emergencial, que compõe o que chamado “Plano Real”, visa reduzir gastos obrigatórios e propõe uma redução “temporária” de até 25% da jornada de trabalho e proporcional a este, um corte de 25 % no salário dos servidores públicos que tanto cooperam para o desempenho do Estado e do país como um todo.

Após apresentação dessa medida “descabida” do governo federal, o vereador professor Gilmar Santos (PT) criticou, durante a sessão plenária desta quinta-feira (07), na Câmara Municipal, os diversos ataques que vem sendo direcionados à classe trabalhadora e lembrou também que o prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, é aliado desse governo, e que seu pai, o senador e líder do governo, Fernando Bezerra Coelho, também está articulando essas Propostas de Emendas Constitucionais (PEC) da mesma forma que operou para construção e aprovação da Reforma da Previdência – ou reforma do fim dos tempos.

“Nós estamos num momento de desmontes, de ataques ao direito dos servidores que foram conquistados durante anos. Inclusive, vale lembrar que um dos operadores desse ataque é o senador Fernando Bezerra Coelho, que articulou a Reforma da Rrevidência e agora está articulando com o governo Bolsonaro essa reforma administrativa, que é um escândalo, uma violência contra servidores e servidoras que há duras lutas conquistaram os seus direitos. O único projeto que esse governo tem para o país é de destruição: Destruição das nossas riquezas, dos nossos direitos sociais e agora quer acabar com a qualidade e as condições de vida de servidores e servidoras do nosso país”, disse o parlamentar.

Na ocasião, Gilmar parabenizou ainda a Associação dos Agente Comunitários de Saúde de Petrolina (ACOSAPE) pela solenidade de posse da Diretoria Executiva, Conselho Fiscal e o Conselho de Ética realizado no dia 05 de novembro, e ressaltou que é importante que a categoria também se mobilize para enfrentar esses desmandos do governo.

“Ao mesmo tempo em que a gente parabeniza, a gente espera que essa mobilização faça o devido enfrentamento a esse estado de violência”, concluiu o edil.

*O Plano Real será apreciado primeiro pelo Senado, onde foi protocolado na última terça-feira (05), e depois pela Câmara dos Deputados.

Novo pacote de Guedes e Bolsonaro propõe corte de até 25% em salário de servidores

“Eu adoraria vender todas as estatais”, afirmou o ministro da Economia, durante apresentação das medidas

Novas propostas do governo foram apresentadas durante agenda de Bolsonaro e Paulo Guedes com presidente do Senado e aliados / Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Um pacote de medidas apresentado nesta terça-feira (5) pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ministro da Economia, Paulo Guedes, deverá intensificar o arrocho do governo sobre servidores públicos.

As medidas para servidores integram o chamado “Plano mais Brasil”, cunhado pela equipe econômica de Guedes, que se divide em três propostas de emenda constitucional (PEC) e será apreciado primeiro pelo Senado, onde foi protocolado nesta terça, e depois pela Câmara dos Deputados.  

Entre os diferentes pontos das PECs apresentadas, há um plano de redução temporária de até 25% da jornada de trabalho, com consequente corte proporcional no salário dos trabalhadores. A sugestão compõe a chamada “PEC Emergencial”.

De acordo com o governo, a ideia do pacote é enxugar os gastos e aumentar as receitas, promovendo uma poupança de R$ 50 bilhões nos cofres públicos em uma década.  

A medida pode atingir os cerca de 600 mil servidores ativos da União, devendo ter ressonância também entre estados e municípios, que terão autorização para promover as mesmas mudanças propostas para o Poder Executivo federal.

O governo argumenta que, de cada R$ 100 do orçamento da União, R$ 93 são canalizados para despesas obrigatórias, sendo R$ 65 para a folha de pagamento.

Outro ponto da proposta diz respeito à instituição do “estado de emergência fiscal”, que poderá ser decretado por entes federados em caso de insolvência financeira. A medida impõe impedimento para promoção de funcionários, excetuando-se apenas os casos de servidores do serviço exterior brasileiro, do Judiciário, além de integrantes do Ministério Público, policiais e militares.

Nessas condições, os entes também não poderão conceder reajustes, criar cargos, reestruturar carreiras, lançar concursos públicos ou criar verbas indenizatórias.  

O Plano

Além da PEC Emergencial, a gestão traz as PECs do Pacto Federativo e dos Fundos Públicos. A primeira propõe reavaliação de benefícios fiscais a cada quatro anos e redução de 40% para 14% do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) repassado ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), entre outros pontos.

O FAT inclui valores do Pis /Pasep e canaliza cerca de 60% dos seus recursos a medidas como pagamento do seguro-desemprego e do abono salarial.

Já a PEC dos Fundos Públicos propõe a extinção da maioria dos 281 fundos existentes no país. Segundo o ministério de Guedes, eles estariam com R$220 bilhões parados porque, entre outras coisas, o Congresso Nacional não tem poder de decisão sobre como utilizar a verba.

A ideia do governo é direcionar os recursos para abater a dívida pública, que consome cerca de 50% do orçamento da União e tem como destino final o mercado financeiro. A equipe econômica do ministério afirma que a não utilização da verba “atrapalha a gestão da dívida”.

O Plano Mais Brasil inclui também uma proposta de reforma tributária e medidas relacionadas às privatizações de empresas públicas. “Eu adoraria vender todas as estatais”, disse Guedes, durante apresentação das medidas, mas ainda sem detalhar o plano de venda das empresas.

Reações

Apesar de ainda não terem manifestado um posicionamento oficial em relação às propostas, entidades de trabalhadores acompanham com atenção os movimentos do governo e já criticam as medidas. Procurado pelo Brasil de Fato, o secretário-geral do Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Distrito Federal (Sindsep-DF), Oton Pereira Neves, se disse “apreensivo” com a pauta.

“Bastante preocupado não apenas com o futuro do servidor, do funcionalismo, mas com o próprio Estado brasileiro. A falta de respeito e do mínimo de dignidade para os servidores vai causar uma precarização nunca nem imaginada no serviço público brasileiro.Na verdade, é a destruição do serviço público, porque ele, sem servidor, não existe”, afirma.

Segundo o dirigente, o sindicato deve se reunir no próximo dia 13 para estudar a fundo o conteúdo das medidas e estabelecer ações de resistência. A ideia é articular outras entidades de trabalhadores e da sociedade civil para promover ações conjuntas.

“Vamos fazer uma resistência conjunta a essas medidas, que estão muito parecidas com as do ex-presdente Fernando Collor de Melo. Não posso falar que estamos surpresos porque este governo não tem limites para a destruição de tudo aquilo que a sociedade brasileira construiu nas últimas décadas, mas é de total irresponsabilidade. Chega a ser até uma desumanidade com o povo brasileiro, ao atacar de forma brutal os servidores”, critica Neves, mencionando ainda o risco de sucateamento dos serviços públicos.

Para o líder da oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ), o pacote apresentado pelo governo desvia o horizonte que tem sido buscado por parte dos parlamentares do campo, que tentam fazer avançar uma proposta de reforma tributária de caráter solidário, com fatiamento mais solidário.

“Nossa prioridade é votar a reforma tributária e apresentar a nossa alternativa. O governo, no entanto, envia um pacote de propostas para desviar o foco da mudança mais desejada pelo brasileiro: a distribuição justa dos impostos, retirando o peso dos mais pobres. Bolsonaro e Guedes jogam contra a população”, critica o parlamentar.

Edição: Rodrigo Chagas

Fim do Minha Casa Minha Vida, aumento das desigualdades sociais e violência do Governo Bolsonaro são denunciados por Gilmar Santos

“É um governo que não tem projeto de desenvolvimento nacional, não tem projetos para geração de empregos, mas tem projeto para entregar as riquezas dos nossos país para o capital estrangeiro e de maneira muito particular, para os interesses dos Estados Unidos”, disse o vereador

Foto: Camila Rodrigues

O vereador professor Gilmar Santos (PT) denunciou durante a sessão plenária desta terça-feira (05), na Casa Plínio Amorim, os diversos ataques que o Governo Bolsonaro tem direcionado à classe trabalhadora, principalmente após o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, ter anunciado na última quinta-feira (30), que não haverá mais contratações para a faixa 1 do programa Minha Casa Minha Vida, o que, para o Gilmar, reflete o verdadeiro compromisso do governo federal com o aprofundamento das desigualdades sociais, da violência e da extrema pobreza num projeto violento de destruição do país.

A faixa 1 do programa é a que beneficia as famílias que tem renda bruta mensal de até 1.800,00 reais. De acordo com a coordenadora da região leste da União de Movimentos de Moradia (UMM), Evaniza Rodrigues, 100% das famílias de baixa renda das cidades médias e das regiões metropolitanas e capitais – que concentram a maior parte do déficit habitacional – “estão sem nenhuma política habitacional”.

“Esse é um ataque do governo Bolsonaro à população mais pobre do nosso país, ao decretar o fim do Minha Casa Minha Vida para a faixa 1, ou seja, para aqueles que ganham até 1800 reais e não terão mais nenhum programa de habitação federal que lhes garanta oportunidade de acesso à moradia. É um verdadeiro crime social contra a população brasileira que vivencia momentos de desespero diante do aumento do desemprego, quase 20 milhões de pessoas estão desempregadas. Nós tomamos conhecimento através de uma pesquisa do PNAD que no Brasil 104 milhões de pessoas estão ganhando em média 413 reais por mês, isso é uma situação de humilhação, de precarização, de desvalorização da vida, de escravização, é transformar os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros/as em escravos/as! É um governo que não tem projeto de desenvolvimento nacional, não tem projetos para geração de empregos, mas tem projeto para entregar as riquezas dos nossos país para o capital estrangeiro e de maneira muito particular, para os interesses dos Estados Unidos”, afirmou Gilmar.

Na ocasião, o edil destacou também os desmontes que a Caixa Econômica, banco responsável pelo financiamento das casas do MCMV, tem sofrido, o que interfere diretamente na prestação e fiscalização desses serviços.

“Esse é o fim de um dos mais importantes programas de habitação instituído entre o governo Lula e o governo Dilma. Nós tivemos aqui uma audiência sobre habitação, e vimos essa câmara lotada, vimos o desespero das pessoas de Petrolina em conseguir uma moradia e vivenciando os mais diversos constrangimentos. A Caixa Econômica, que é o banco que mais representa os projetos de habitação, está sendo desmontado também, é por isso que não está dando conta de fiscalizar esses desmandos que acontecem em Petrolina”, ressaltou o parlamentar.

Ao elencar as diversas formas de violência que o governo Bolsonaro tem promovido, Gilmar voltou a questionar as ligações da família Bolsonaro com as milícias no RJ e seu possível envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, no dia 14 de março de 2018.

“O assassinato da companheira Marielle Franco continua sendo motivo de grande desconfiança das ligações da família Bolsonaro com as milícias, com esse ato brutal e covarde que não ataca somente a vida e memória de Marielle, mas também a dignidade da população brasileira, a democracia. Me envergonha muito quando essa Casa em alguns momentos contribui para alimentar o discurso de violência, reafirmando estigmas, preconceitos, contra a companheira assassinada, e não reconhece que nós estamos vivendo um momento de profunda violência política, inclusive agora, com o filho do presidente fazendo apologia à ditadura militar, ao AI-5, que foi o pior Ato Institucional da ditadura, que fechou o congresso, que censurou a imprensa, que acabou com as liberdades civis e políticas. Como pode aqui em Petrolina nós termos tantas pessoas representando esse governo que ataca a vida da maior parte da população brasileira? É essa denuncia que precisamos fazer. Quem matou Marielle isso já está sendo praticamente concluído, o que nós queremos sabe é: Quem mandou matar Marielle? E me parece que todos os sinais indicam um comprometimento da família Bolsonaro, que representa essa apologia e apoio à violência política. Então fica o nosso repúdio a esse governo e os seus ataques à classe trabalhadora”, concluiu o edil.

10 meses de Bolsonaro: 10 escândalos que chocaram o Brasil e o mundo

“A tragédia é tão grande que qualquer um que se disponha a enumerar os problemas nestes primeiros 10 meses deve, via de regra, delimitar a análise e ainda assim abrir mão de muitos erros cometidos desde o dia 1º de janeiro”

Foto: Divulgação

Quando Jair Bolsonaro (PSL) completou 100 dias como presidente da República, os números já eram alarmantes: cortes em direitos sociais e trabalhistas, falta de políticas claras de geração de emprego e renda, fim de programas antes considerados prioritários e incontáveis crises.

Agora, quando encerra-se o seu décimo mês à frente do cargo máximo da nação, a gestão de extrema-direita sugere futuro ainda pior diante de uma trajetória deplorável até aqui. A tragédia é tão grande que qualquer um que se disponha a enumerar os problemas nestes primeiros 10 meses deve, via de regra, delimitar a análise e ainda assim abrir mão de muitos erros cometidos desde o dia 1º de janeiro.

Na lista abaixo, o recorte leva em conta “apenas” os escândalos que envolvem não só o presidente como sua equipe e família. Aos que têm conseguido ânimo para acompanhar em tempo real os desdobramentos políticos do país, pode parecer pouco. Aos olhos da história, no entanto, este governo  já pode, sim, ser considerado um completo fracasso.

1.  O ministério dos criminosos e investigados

Sem apresentar uma proposta sequer e ausente de todos os debates, Jair Bolsonaro construiu sua candidatura à Presidência à base de notícias falsas e promessas que, antes mesmo de assumir o cargo, já começam a ser descumpridas. A principal delas era o combate à corrupção, conforme destacou reportagem da revista Carta Capital.

Sem dar a mínima para os seus próprios eleitores, o militar não só ampliou o número de ministérios prometidos como formou um time repleto de nomes com problemas na Justiça. Ao menos nove dos futuros ministros anunciados até agora são investigados ou réus em ações judiciais. A lista vai do caixa 2 confesso por Onyx Lorenzoni (DEM) ao calote no INSS do desconhecido deputado Marcelo Álvaro (PSL), que veio a ser seu ministro do Turismo.

2.  A rachadinha e os funcionários fantasmas

Embora tenha acontecido antes de assumir o cargo como presidente, a revelação de que Jair Bolsonaro manteve funcionários fantasmas em seu gabinete enquanto era deputado federal só veio à tona em abril deste ano. Bárbara de Oliveira Ferraz, Denise Marques Felix, Patrícia Cristina Faustino de Paula, Dulcineia Pimenta Peixoto e Mirian Melo Lessa Glycério de Castro recebiam entre R$ 1.023 e R$ 4.188 para assessorá-lo como parlamentar. O problema é que nenhuma delas apareceu uma única vez para trabalhar – as cinco secretárias sequer tinham crachá, item obrigatório para entrar no Congresso.

As funcionárias fantasmas, denunciadas em reportagem publicada pela Agência Pública nesta segunda (29), engordam a lista de casos que contrariam todo o discurso de combate à corrupção que Jair usou durante a campanha eleitoral, marcada ainda pelo escândalos das fakes news.

3.  As declarações machistas, misóginas, racistas…

Quem ainda se lembra do bizarro caso do “Golden Shower” hoje avalia a declaração do presidente durante como um prenúncio das aberrações que viriam em seguida. Aliás, foram tantas as declarações racistas, machistas, misóginas, preconceituosas e desinformadas que fica até difícil de listar.

Teve dia em que, logo no café da manhã, Bolsonaro declarou a jornalistas de veículos estrangeiros que no Brasil “passa-se mal, não come bem. Agora passar fome, não”.  Teve também ataque ao Nordeste (algo que sempre fez como parlamentar): no dia 19 de julho, ao criticar os governadores da região, usou a expressão “paraíba” – termo ultrajante usado em tom pejorativo para desqualificar os nordestinos.

No mesmo mês, voltou a evocar a memória da ditadura militar numa provocação ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.  Bolsonaro disse saber detalhes sobre a forma como Fernando Santa Cruz, pai de Felipe, morreu. O atestado de óbito, contudo, diz que Santa Cruz foi morto por agentes da ditadura.

Também teve desdém às políticas ambientais (“questão ambiental só importa aos veganos que comem só vegetais”) e o ataque medonho, infantil, misógino à primeira-dama francesa Brigitte Macron.

4. As candidaturas laranjas

Entre os nove ministros com problemas na Justiça, o do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi o que viu o cerco se fechar de maneira mais aguda. Ele foi denunciado pelo  Ministério Público de Minas Gerais no âmbito do inquérito da Operação Sufrágio Ostentação, que investiga um suposto esquema de desvio de recursos por meio de candidaturas femininas laranjas do PSL de Minas Gerais nas eleições de 2018 – com suspeitas de que ao menos parte da verba tenha sido usada para impulsionar a campanha presidencial de Bolsonaro.

Os investigadores atribuem ao ministro, que foi eleito deputado federal como o mais votado em Minas, a articulação do esquema. O Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais o denunciou por três crimes envolvendo candidaturas laranja do partido em 2018 – falsidade ideológica, apropriação indébita eleitoral, pela qual o candidato se apropria de recursos destinados ao financiamento eleitoral, e associação criminosa.

5.  A cocaína no avião da Presidência

Com imagem internacional já em completa falência, isso ainda no mês de julho, mais uma bomba atingiu em cheio o governo federal quando  um militar da Aeronáutica foi preso por porte de drogas em uma aeronave militar no aeroporto da cidade espanhola de Sevilha, onde o presidente Jair Bolsonaro faria escala na viagem rumo ao Japão . O militar era tripulante do voo que transportava a equipe avançada do presidente da República.

Embora não haja qualquer indício de envolvimento de Jair com o caso, a família do mandatário da nação tratou de reavivar a história com mais, digamos, problemas: o acusado de tráfico, sargento Manoel Silva Rodrigues, entrou com processo em setembro contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL)por ter sido impedido de se defender até o momento. 

6.  O desmoronamento do PSL

A pecha de “partido salvador da pátria” durou pouco e o PSL, como se sabe, já é o partido mais odiado do país. Isso porque o descontrolado presidente tratou de explodir a própria legenda internamente a partir de uma declaração surreal a um apoiador: Jair disse ao dito-cujo para esquecer o PSL e que o presidente da sigla, o deputado Luciano Bivar (PE), “está queimado pra caramba”.

Em questão de horas o racha no PSL estava decretado e a briga ainda está muito longe de acabar. Com mudanças na liderança do partido e a troca de acusações públicas entre a família Bolsonaro e os apoiadores de Bivar gerou um dos capítulos mais nefastos da política brasileira recente.

7.  Encontraram o Queiroz, mas nada aconteceu até agora

A recente divulgação de áudios de Fabrício Queiroz, ex-assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro e amigo há três décadas do presidente Jair Bolsonaro, fez ressurgir o escândalo que se arrasta desde 2018.

Queiroz passou a ser investigado depois que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou diversas transações suspeitas feitas por ele, uma delas envolvendo um cheque de R$ 24 mil depositado na conta da hoje primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Esses dados financeiros levaram à abertura de uma investigação pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que suspeita da existência de um esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa. De lá para cá, o caso ganhou diversos desdobramentos: suspensão das investigações pelo STF, tentativa de blindar Flávio junto à Polícia Federal a mudanças na direção do Coaf.

Para um governo que se dizia contra corrupção, o caso só evidencia as incoerências no discurso da família Bolsonaro. Para piorar, o futuro da investigação sobre Queiroz – que ainda tem influência direta nas decisões políticas da família – depende de o Supremo Tribunal Federal decidir se informações do antigo Coaf podem ou não ser compartilhadas com órgãos de controle e de investigação sem autorização judicial.

8.  Estudantes “idiotas”, Amazônia em chamas e o óleo no NE

O levante popular contra os cortes na Educação pública foi a maior manifestação contra o desgoverno de Jair Bolsonaro até agora. E, como não poderia deixar de ser, a mobilização de maio ganhou contornos ainda maiores quando o presidente chamou os estudantes de “idiotas úteis”. Isso bastou para que milhões de brasileiros e brasileiras saíssem às ruas para protestar contra a gestão retrógrada em curso.

Pouco tempo depois,  em outubro, veio a crise da Amazônia – a mais “internacional” de todas até agora. Nem mesmo a insistência em tirar a própria responsabilidade pelo problema conseguiu evitar o estrago. O fato é que, dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que, de janeiro a 22 de agosto de 2019, os satélites registraram o maior número de focos de queimadas no Brasil desde 2013. Se comparado com o mesmo período do ano passado, o aumento foi de 82%.

Mais recentemente, as manchas de óleo que chegaram em todo o litoral do Nordeste colocaram em xeque (pela enésima vez) a gestão bolsonarista – sobretudo seu ministro do Meio AmbienteRicardo Salles. Para variar, a cúpula bolsonarista tentou de tudo para se esquivar do problema acusando a Venezuela, os governos estaduais e até o Greenpeace. Infelizmente, o óleo ainda permanece nas praias e escancara o descaso federal com as questões ambientais.

9. A ligação ao caso Marielle

Quando o nome de Jair Bolsonaro surgiu nas investigações sobre a morte de Marielle Franco o mundo todo ficou em choque. De acordo com o  Jornal Nacional, da TV Globo, o porteiro do condomínio de luxo do presidente no RJ afirmou, em depoimento à polícia, que um dos principais acusados de matar a vereadora, o ex-PM Elcio Queiroz, buscou a casa de Bolsonaro no dia do crime, em 14 de março de 2018.

Ainda que Jair de fato estivesse em Brasília e o MP do Rio de Janeiro tenha dito que a declaração do porteiro é falsa, há muitas pontas soltas a serem amarradas. A principal delas é o fato de a promotora Carmen Carvalho, membro da equipe que investiga a morte da vereadora, ter feito campanha pela eleição de Bolsonaro – ela pediu afastamento nesta sexta (1) após enorme pressão.

Outra questão é a suposta falha a da Promotoria ao não examinar a possibilidade de que os arquivos de áudio que tratam da entrada de visitantes no condomínio do presidente Jair Bolsonaro e de Lessa tenham sido alterados antes de enviados às autoridades.

O que se sabe é que a relação da família Bolsonaro com as milícias já vem de longa data, com direito a condecorações, fotos e homenagens em declarações públicas – inclusive em defesa de milicianos presos posteriormente.

10. O AI-5 e  o criminoso ataque à democracia

Ao melhor estilo “cortina de fumaça”, dias depois de o pai ver seu nome envolvido ao caso Marielle, o deputado Eduardo Bolsonaro conseguiu desviar totalmente o foco ao defender medidas drásticas, como “um novo AI-5”, para conter uma eventual “radicalização” da esquerda, puxada por protestos contra o governo, a exemplo das manifestações ocorridas no Chile.

A menção ao Ato Institucional n.º 5, o mais duro conjunto de leis instituído pela ditadura militar, em 1968, causou forte reação nos três Poderes, além de – pela enésima vez – manchar a imagem do Brasil no exterior.  A declaração criminosa repercutiu nos principais jornais do mundo e pode gerar a cassação do deputado radical.

Da Redação da Agência PT de Notícias

Bolsonaro admite que pegou da portaria as gravações do interfone de condomínio no Rio

“Pegamos toda a memória da secretária eletrônica que é guardada há mais de ano”, disse o mandatário, admitindo possível interferência na investigação

Foto: Divulgação

 O presidente Jair Bolsonaro admitiu, neste sábado (02), que pegou a gravação das ligações da portaria do condomínio aonde tem casa, no Condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro, supostamente para impedir que fossem adulteradas.

“Nós pegamos, antes que fosse adulterada, ou tentasse adulterar, pegamos toda a memória da secretária eletrônica que é guardada há mais de ano. A voz não é a minha”, disse o mandatário a jornalistas, admitindo, assim, a interferência na investigação.

As gravações a que se refere Bolsonaro são as que poderiam comprovar a declaração do porteiro do condomínio, que contou à polícia que o ex-policial militar Élcio de Queiroz, um dos suspeitos do crime contra Marielle Franco, esteve no local dizendo que iria à casa que pertence ao mandatário, e que “seu Jair” atendeu o interfone e autorizou a entrada, horas antes do crime.

Queiroz teria se dirigo à casa, no mesmo condomínio, de Ronnie Lessa, outro suspeito do crime. Naquele dia, Bolsonaro estava em Brasília e participou de votações na Câmara, enquanto era deputado federal. Queiroz e Lessa estão presos desde março.

Fonte: GGN

Novembro Negro e caso Marielle Franco foram tratados na tribuna por Gilmar Santos (PT)

“O parlamentar questionou as ligações da família Bolsonaro com as milícias no RJ e fez referência ao Projeto de Lei nº 147/2019 que ele e a vereadora Cristina Costa apresentaram na Casa Plínio Amorim na última terça-feira (29), lembrando que essa também era uma das bandeiras de Marielle”

Foto: Camila Rodrigues

Após o nome do presidente Jair Bolsonaro ser citado nas investigações da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e de seu motorista Anderson Gomes, ocorrida no dia 14 de março de 2018, o vereador professor Gilmar Santos (PT) cobrou durante a sessão plenária desta quinta-feira (31) uma resposta do Supremo Tribunal Federal a respeito das investigações, bem como apontou as ligações da família Bolsonaro com milícias e criticou o posicionamento do Ministro da Justiça Sérgio Moro, que em suas atribuições tem se preocupado mais em defender o presidente do que de fato em exercer seu papel enquanto Ministro.

De acordo com a reportagem do Jornal Nacional (TV Globo) que foi ao ar na noite da última terça-feira (29), o porteiro do condomínio de luxo do presidente no RJ, afirmou que o ex-PM Elcio Queiroz, um dos principais acusados do assassinato da vereadora, buscou a casa (nº58) de Bolsonaro no dia do crime. O suspeito teve entrada autorizada no condomínio por alguém na casa do então deputado federal, que teria sido identificado pelo porteiro como “Seu Jair”, mas acabou se dirigindo para a casa de Ronie Lessa, acusado de ter efetivado os disparos que ceifaram a vida de Marielle.

“Isso deve ser motivo de uma grande mobilização nacional para que essa investigação seja realmente isenta e que a justiça seja feita sobre os assassinatos da Marielle e do Anderson. As ligações da família Bolsonaro com milicianos não é nenhuma novidade para a população brasileira, nós sabemos que o presidente e seus filhos tem relações íntimas, políticas com bandidos na cidade do Rio de Janeiro (…) a grande novidade agora é o que está na imprensa nacional, e a pergunta que nós fazemos é: o “senhor Jair” era o filho do presidente, de mesmo nome, ou será possível que o próprio presidente em Brasília, através de todas essas tecnologias de conexão de telefones, atendeu esse comunicado do porteiro? (…) É necessário que se investigue!” ressaltou Gilmar.

Como pontuou o parlamentar, não é novidade a relação amistosa do clã político bolsonarista com grupos criminosos formados por policiais e militares no Rio. A sombra da milícia está em cada passo dado pela família do presidente e pode ser comprovada por fatos anteriores: Em 2015, Jair Bolsonaro fez um discurso em defesa de Adriano Magalhães da Nóbrega chefe da milícia do Rio das Pedras e articulador do Escritório do Crime, o maior grupo de matadores de aluguel do Rio; A mãe (uma das remetentes de depósitos para Fabrício Queiroz) e a esposa de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro até novembro de 2018; Em maço deste ano a Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil do Rio de Janeiro encontrou 117 fuzis na casa de um amigo do policial militar Ronnie Lessa; A filha de Lessa namorou o filho mais jovem do presidente que tem fotos ao lado de Queiroz, também acusado pela morte da vereadora; Lessa é acusado de matar Franco; Tio da esposa de Michelle Bolsonaro foi preso em maio desse ano por integrar milícia no DF e a mesma recebeu em sua conta bancária dinheiros que podem ser oriundos desse tipo de serviço.

Para Gilmar, a execução de Marielle tem motivações políticas, pois, era uma mulher negra, periférica, mãe e lésbica que ocupava um cargo de poder enquanto vereadora e lutava pelo direito dos seguimentos socialmente empobrecidos e oprimidos pelo Estado. Combativa, a vereadora tornou-sem uma ameaça para as elites conservadores que vinham se articulando para a eleição de Bolsonaro.

“Eu espero muito que a sociedade brasileira e o STF não se acovardem e que a gente enfrente esse momento como grande oportunidade de devolver a democracia, a soberania, e a dignidade do povo brasileiro e derrubar esse governo, que é explicitamente comprometido com a violência e com a destruição do nosso país, e aí sim a memória da companheira Marielle será respeitada. Que a justiça seja feita. Marielle vive, Marielle presente! Viva a luta do povo brasileiro!” exclamou o edil.

Ainda durante a sessão, o parlamentar fez referência ao Projeto de Lei nº 147/2019 que ele, junto à vereadora Cristina Costa, apresentou na Casa Plínio Amorim na última terça-feira (29), lembrando que essa também era uma das bandeiras de Marielle, militante dos Direitos Humanos. O PL institui o Novembro Negro no Município de Petrolina, o inclui no calendário oficial da Prefeitura e reconhece a data de 20 de Novembro como comemorativa para o povo negro do Município.

“Com esse PL nós reafirmamos nossa luta para superação das desigualdades, para que a nossa população que está nas periferias, muitas vezes negligenciadas, abandonas, vivenciando o racismo nas escolas, a descriminação e a intolerância religiosa, tenha mais dignidade e seus direitos garantidos, assim como queria também a companheira”, concluiu.

Lula: “O discurso das hienas foi feito para os milicianos de Bolsonaro”

Em entrevista exclusiva à Pública, ex-presidente fala de Bolsonaro, Amazônia, Rede Globo e eleições 2020

Ex-presidente Lula concedeu entrevista na última quarta-feira (30) / AF Rodrigues/Agência Pública

Havia um clima de discreto otimismo entre os assessores e advogados de Lula. Ontem, uma decisão do STJ suspendeu o julgamento de uma questão sobre o processo do sítio de Atibaia — o que foi visto como vitória porque levaria o caso de volta às alegações finais, mas não anularia o processo, como quer a defesa do ex-presidente. Além disso, a votação em andamento no Supremo Tribunal Federal sobre a prisão em segunda instância traz, pela primeira vez, uma possibilidade concreta de liberdade para Lula, ainda em novembro. 

Mais do que a esperança, porém, é a ironia que aparece na entrevista concedida pelo ex-presidente na sala da PF, onde, ladeado por policiais ele recebe os jornalistas — obrigados, pela polícia, a ficar a pelo menos três metros de distância dele. Ao comentário sobre a gravata com as cores do Brasil que usa com blazer e calça jeans dispara: “Essa gravata tem história, rapaz, é de quando conquistamos as Olimpíadas em Copenhagen. Eu ganhei 18. Como vou viver até os 120 anos tenho gravata para usar o tempo que quiser”, provoca.

E não há sinais de comemoração em sua resposta sobre suas primeiras vitórias na Justiça: “Eu deveria ficar até carrancudo quando você faz uma pergunta dessa, mas é tão hilário o que aconteceu na minha vida… Estou agarrado pelo monstro e estou rindo”, diz, antes de prometer: “Podem perguntar o que quiserem, não ficarei nervoso como o Bolsonaro ficou ontem à noite”, referindo-se à live do atual presidente depois da reportagem da rede Globo sobre o depoimento do porteiro do condomínio da Barra da Tijuca, dizendo que um dos acusados de assassinar a vereadora Marielle Franco havia procurado Bolsonaro na noite do crime. 

Bom humor, indignação e alfinetadas aos adversários políticos se alternam nesta segunda entrevista do dia — antes da Pública, ele tinha recebido uma equipe de TV francesa. O tempo apertado de 60 minutos marcados no relógio, por imposição das regras da prisão, pressiona ex-presidente e entrevistadores, mas ele sabe do que quer falar. “Nesse país, pode ter certeza, só tem um partido político que funciona como partido político: é o PT”, diz, para emendar: “Você percebe que o partido do Bolsonaro não existia ontem e que agora, por causa de uma eleição, eles vão receber R$ 400 milhões ou mais do fundo partidário? Qual a empresa que vai ganhar R$ 400 milhões do nada?”, cutuca.

Entre os muitos temas abordados na entrevista, a relação com Dilma e as decisões sobre as próximas eleições deixam claro que Lula, preso ou solto, vai dar as cartas em 2020. “Num partido como o PT o partido tem que fazer prevalecer a sua vontade e decidir quem vai ser candidato. Como é que você vai ganhar o carnaval se você não se apresenta?”

Agência Pública — A suspensão do julgamento, pelo STJ, do TRF-4, marcado para hoje, sobre o processo do sítio de Atibaia, é uma vitória para a sua defesa. E tem também a questão do julgamento em segunda instância. Como o senhor vê esse cenário?

Luiz Inácio Lula da Silva — É uma coisa que eu deveria tratar com muito mais seriedade, ficar até carrancudo quando você faz uma pergunta dessa, mas você percebe que eu sorri, porque é tão hilário o que aconteceu na minha vida… Tem uma enxurrada de processos – acho que vão chegar uns dez processos – com uma mentira mais grave do que a outra. Tem a mentira do triplex, a mentira do sítio de Atibaia, a mentira que vai vir ainda do terreno do Instituto [Lula], vai vir tudo. É uma enxurrada de fantasias criada por essa quadrilha de promotores da Lava Jato – que é uma quadrilha, chefiada pelo Dallagnol – feita por delegados que não tiveram sequer respeito à instituição Polícia Federal, que mentiram em seus inquéritos, para um juiz mentiroso e para um TRF-4 faccioso. 

Estou agarrado pelo monstro e estou rindo, porque tenho certeza que, dentre tudo isso que falei, só tem uma pessoa que merece respeito nesse país, entre essas que falei, que sou eu. Eles sabem que sou inocente, sabem que mentiram, e tudo isso sustentado pela necessidade que a Globo tinha de destruir o PT. E, para destruir o PT, tinha que destruir o governo da Dilma e, para destruir o governo da Dilma e o Lula voltar não dava certo, então tinha que destruir o Lula também. Tudo isso é um conluio sem precedente na história do país. 

Eu, então, que poderia ter saído do Brasil como alguns queriam, resolvi vir para cá, porque é daqui que quero me libertar de cabeça erguida. E oxalá o dia em que tiver justiça nesse país, os meus algozes venham para a cadeia. 

Esse país não pode ter um juiz como o Moro, não pode ter um promotor como o Dallagnol e não pode ter na Polícia Federal alguns delegados que fizeram inquéritos mentirosos contra mim. Só posso dizer para você o seguinte: estou brigando, e como nasci para brigar – sou de um estado que briga muito, Pernambuco, antes de 1822, já estava fazendo sua luta pela independência. Estou aqui para brigar pela decência, pela inocência e por justiça. E sonho que esse país vai ter Justiça. O dia em que tiver justiça, serei inocentado.

Parece incrível, mas tenho dito aos meus advogados que não ando preocupado com a discussão [da prisão após] segunda instância. Não é pedido meu. Não ando preocupado com meu processo jurídico, porque tenho muita consciência de que a minha condenação tem 99,9% de política. O jurídico tem lá meio por cento. Veja: o processo de um triplex, que você poderia ir no cartório, pegar a escritura de compra, pegar o recibo de pagamento, pegar algum documento, numa ou duas páginas você provaria se eu sou ou não [dono do triplex]. Ou seja, baseado numa mentira do jornal O Globo, esse processo já tem não sei se é milhões ou 300 mil páginas. Imagina a quantidade de mentiras contadas em 300 mil páginas numa coisa que precisava apenas de uma escritura. 

Eu sou vítima de uma mentira que eles não têm como desfazer, porque para desfazer o que eles montaram, para me tirar da vida libertária, eles não têm como voltar – tem que cair Moro, têm que cair Dallagnol e mais gente, têm que cair mais procuradores, tem que julgar o TRF-4. 

Mesmo no Superior Tribunal de Justiça, eu vi o julgamento, ninguém entrou no mérito. As pessoas ficam falando e eu só quero saber “porra, sou dono ou não do apartamento?”. Digam! Ninguém diz. 

Aí o juiz vai me julgar e diz “ele cometeu um crime de fato indeterminado, nós não sabemos, é segredo o crime”. Aí vai o procurador, depois de contar uma hora e meia de mentira da forma mais canalha possível – esse cidadão deveria ter sido exonerado no dia depois do PowerPoint –, faz uma hora e meia de acusação, cria uma fantasia – parecia um desenho da Disney – e diz o seguinte: não me peçam provas, eu só tenho convicção. E esse cidadão está aí, ganhando dinheiro e roubando, fazendo instituto para lesar e roubar a Petrobras, para roubar as empreiteiras com delação. Eu fico hiper irritado, mas de bom humor, um irritado mas calmo.

O senhor disse que a Globo queria tirar o senhor. Acha que isso se devia a quê? Ontem mesmo, houve a reportagem sobre essa situação de um dos suspeitos do assassinato da Marielle ter ido ao condomínio do Bolsonaro. O porteiro diz que ele ligou para a casa do Bolsonaro e o Bolsonaro respondeu. Tem essa questão do Bolsonaro estar em Brasília, mas, de qualquer jeito, é uma situação que mostra uma proximidade muito grande. O senhor acha que a Globo deu a matéria também com a intenção de abreviar o governo Bolsonaro ou que, nesse caso, eles agiram jornalisticamente?

Veja, eu vi a matéria da Globo ontem contra o Bolsonaro. A Globo fez uma reportagem e, nessa reportagem, mostra o que aconteceu e diz que Bolsonaro não estava em casa, porque ele estava votando em Brasília. Queria que a Globo fosse honesta comigo como ela foi com o Bolsonaro. Não sou contra que a imprensa fale mal de mim o quanto quiser, se tiver verdade. Se o Lula fez uma merda, digam sem rodeios, mas expliquem o que ele fez. Agora, se ele não fez, não mintam, e a Globo faz muitos anos que mente a meu respeito, mente deliberadamente. 

Tem uma professora da Universidade Federal de Minas Gerais que está fazendo ou fez a tese dela – recebi uma cópia aqui, nem a conheço. Ela mostra que tem mais de duzentas horas do Jornal Nacional contra o Lula e nem um minuto favorável. Isso agora, depois que deixei a presidência, porque passei a incomodá-los mais do que quando era presidente. 

Eu não consigo entender qual é o ódio. A única explicação que tenho é a ascensão social do povo brasileiro. Ou que, quando entrei na presidência, tinha 348 meios de comunicação que recebiam dinheiro da Secom, nós passamos para quase 4 mil. E foi pouco, porque precisaria fazer mais. 

Agora está mais grave, porque agora é a Globo, a Bandeirantes, o SBT.

Presidente, nós vamos falar mais até da questão da regulação de mídia, que o senhor já tem falado. Mas queria que o senhor comentasse a mudança de conjuntura política da América Latina. Houve a eleição do Alberto Fernández e da Cristina Kirchner na Argentina. Está se desenhando a vitória da Frente Ampla no Uruguai, houve o Evo Morales na Bolívia, e nos países onde a esquerda está fora do governo, no Equador e no Chile, houve todos aqueles protestos. O senhor vê uma guinada?

Quem ama e vive a democracia precisa perceber o seguinte: em 500 anos de história, a América Latina nunca tinha tido a experiência de esquerda que teve com a chegada no governo do Chávez, minha, do Evo, do Kirchner, do Tabaré e depois do Pepe Mujica. Nunca tinha tido. Teve o [Álvaro] Colom na Guatemala, o Maurício Funes em El Salvador. Foi uma guinada histórica. 

Tinha tido o general Cárdenas no México, na década de 30, o Perón na Argentina, o Getúlio Vargas aqui. Mas não eram pessoas de esquerda, era gente da elite que tinha o pensamento progressista. Mas gente com pensamento de esquerda foi a primeira vez. 

O que nós tínhamos que nos preparar é que, da forma mais democrática possível, você ganha e você perde. Se pegar os Estados Unidos como modelo, vai perceber que os Democratas governam quatro ou oito anos, depois caem fora, aí entram os Republicanos, governam quatro ou oito anos e caem fora. Raramente um governa quatro mandatos; o Roosevelt foi um dos poucos que governou quatro mandatos nos Estados Unidos. 

Esse revezamento no poder é salutar para a democracia, é saudável demais a mudança de governo, a alternância no poder é importante. O PT tinha que saber que um dia ia deixar de governar – não por golpe. 

Essa é a safadeza de quem deu o golpe. Eles sabiam o seguinte: a Dilma foi eleita em 2014 e esse tal de Lula vai voltar em 2018. Se esse tal de Lula voltar em 2018 e fizer o mesmo governo que fez, pode se reeleger em 2022. Então, “espera aí, esse PT vai governar trinta anos esse país? Colocando preto, empregada doméstica, gente da periferia na universidade? Essas pessoas viajando de avião, comendo três vezes por dia, tendo conta bancária, produzindo a terra com muito financiamento? Vamos parar com isso”. O medo deles era que houvesse essa continuidade. 

Mas o fato de você perder ou não… A Cristina perdeu eleitoralmente, com muita mentira, mas perdeu. Agora voltou. Nós já governamos o Uruguai – quando digo nós, todos os meus amigos, tanto o Tabaré quanto o Pepe Mujica – já vai fazer quinze anos. Então, chega uma hora que as pessoas querem mudar. Mas nada impede que se perca e ganhe daqui a quatro anos. O Evo Morales vai continuar, mas pode perder. É assim, não temos que ver a derrota democrática como um mal. É sempre mau para o partido, que nunca quer perder, todo mundo quer ficar o tempo inteiro. 

Ai de nós, todo mundo gostaria de ter sessenta anos no poder, de ter cinquenta anos no poder. Temos que ter noção de que o tempo é assim. 

Qual é o problema? É que o melhor período da América Latina foi esse período em que a esquerda governou. E se você perceber, o maior adversário em todos os países – na Bolívia, Venezuela, Argentina – é a imprensa conservadora, os donos dos meios de comunicação. 

Não o jornal, porque o jornal escreve o que quer, o cara tem que comprar jornal, mas a televisão é uma concessão do Estado, então as pessoas precisam, no mínimo, ser respeitosas com quem está governando e não transformar o meio de comunicação em um partido político, que é o que é hoje a Globo. Aliás, ela vem preparando candidato já faz tempo.

Uma época, o senhor chegou a se dar bem com a Globo.

Veja, eu sempre me dou bem com todo mundo, nunca tive uma relação boa com a Globo. Aliás, a Globo nunca teve uma relação comigo. Quando o velho Roberto Marinho era vivo, quando o velho Frias era vivo, quando os Mesquita velhos eram vivos, a gente tinha uma relação mais civilizada. Parece bobagem o que vou te dizer, Marina, mas você trabalhou na Folha. O velho Frias era muito melhor do que os filhos; os Mesquitas pais, muito melhores do que essa molecada que está; o doutor Roberto Marinho era mais civilizado do que essa gente que está lá agora. 

Porque essa gente deformou o poder de mando, eles não mandam mais, terceirizaram o mando. São burocratas que mandam, e burocrata não tem compromisso, não tem sensibilidade, você nem conhece. Quem é que conhece a cara do Ali Kamel? Ninguém conhece, não sabe onde ele mora, onde o filho dele estuda, em que restaurante ele come; você não conhece os Marinho, conhece de vez em quando um. Agora, nós, políticos, somos conhecidos. 

O velho Roberto Marinho resolvia os problemas quando você ligava para ele. Vou te contar uma história: na Constituinte, uma vez, teve um debate de um sindicato que foi até duas, três horas da manhã, e no dia seguinte aparece um sindicalista da Força Sindical no Bom dia Brasil falando do debate na Câmara. Liguei para o Roberto Marinho e falei: “pô, Roberto, não tem sentido a gente ficar até às quatro horas da manhã brigando e no dia seguinte vocês não põem ninguém da CUT falando, colocam só da Força Sindical”. Ele me falou assim: “Lula, é o seguinte, quem que você quer que a gente entreviste, que vamos entrevistar hoje”. E mandou entrevistar uma pessoa e colocou no ar. 

Uma vez, o Chico Anysio me deu uma esculhambada naquele programa que ele tinha à meia-noite de domingo. Liguei para o doutor Roberto Marinho: “o senhor assistiu ao programa do Chico Anysio ontem? O senhor viu o que ele falou?”. Ele disse: “Lula, amanhã vai um repórter lá te entrevistar, você vai ter um minuto para responder o minuto do Chico Anysio”. 

Hoje, com essa molecada que está lá, você não consegue, eles não mandam, não têm autoridade. Só quero te mostrar que os meios de comunicação já foram mais civilizados do que hoje. A revista Veja já foi uma revista séria, hoje é um lixo. As revistas Época e IstoÉ não são revistas, são fake news. Você sabe que os jornais já foram mais sérios. 

Eu lembro que quando eu comecei a ler a Folha de S. Paulo era porque a Folha era de esquerda. O jornal O Estado de S. Paulo era o que é hoje, de direita. Isso acabou. 

Quando eles criaram um grupo chamado [Instituto] Millenium, era um grupo que determinava as manchetes. Depois que o PT entrou no governo, depois do Millenium, eles passaram a decidir as manchetes juntos. Era quase todos os jornais com a mesma manchetes; toda revista, a mesma manchete. Então, piorou muito. 

Então, eu acho que eu cometi um erro no meu governo que foi não levar mais a sério uma nova regulamentação para os meios de comunicação. 

Mas aí, quando o senhor está falando nessa regulamentação, o senhor está falando em uma regulamentação de ver propriedade cruzada de meios, não uma regulamentação de conteúdo?

Veja, em algum momento a sociedade tem que opinar sobre as coisas que acontecem no Brasil. Por que a gente é democrático para achar que a sociedade tem que interferir em tudo, e na hora de discutir determinado conteúdo, a sociedade é proibida de discutir? Nós não queremos ter ingerência. Não é fazer o conteúdo, mas dizer que tal conteúdo não pode ser publicado porque ele é ofensivo à sociedade brasileira, à nossa cultura, aos nossos costumes… Quem é que vai julgar? É a própria sociedade, não é o presidente da República. 

Sabe, quando uma televisão conta uma mentira política, como contou tantas do Moro contra mim, e meu advogado entrava com pedido de direito à resposta, nunca tivemos. Nunca tivemos.



Mas o senhor não acha que isso corre o risco de ser confundido com censura?

Eu lembro que uma vez apareceu um ideia para gente criar o Conselho Nacional de Jornalismo. Era uma reivindicação dos jornalistas, que veio através do sindicato de Brasília. Antes da gente discutir, meu companheiro Ricardo Kotscho mandou para o Congresso Nacional, conversou com o líder da bancada… 

A imprensa bateu tanto, a imprensa que defende a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], que defende o Conselho de Psicologia, que defende o conselho de arquitetos, de Engenharia, de Medicina…. Ela babava com ódio da possibilidade de um conselho nacional de jornalistas. 

Por quê? Por que se sentem tão ofendidos? Eles nem aceitaram a Hora do Brasil, mudaram a Hora do Brasil… Eles podem tudo, devem tudo, elas falam a hora que eles quiserem…  

Posso te dizer: nem Silvio Santos, nem Edir Macedo, nem o dono da Bandeirantes, o Johnny [João Carlos] Saad, nem o dono da Globo vai encontrar um presidente que os tratem da forma mais civilizada do que eu os tratei. E da forma mais respeitosa. Agora, eles sabem o que fizeram comigo. Então eles sabem que é preciso mudar alguma coisa na regulação dos meios de comunicação. 



O senhor, que é amigo do Mujica e do Tabaré Vázquez, vislumbra uma possibilidade do Brasil e da política brasileira, de algo como a Frente Ampla do Uruguai? 

Quando deixei a presidência, eu sonhei isso. Eu fui atrás, eu estive no Uruguai conversando, vendo como é que é. Se você for analisar bem, o PT já é quase uma frente ampla. O PT tem dez, doze tendências. Agora mesmo, na disputa interna, teve nove chapas. Ou seja, no mínimo nove tendências, cada uma tem uma filosofia, cada uma tem uma ideologia, cada uma acredita numa coisa. E o PT, eu brinco de vez em quando, que essas pessoas têm que dizer em alto e bom som que o PT deu cidadania para eles, porque todos eles viviam na clandestinidade, nos anos 1980, e o PT apareceu [dizendo] “venham para cá todo mundo, venham para cá”. O PSOL nasceu do seio do PT…

Mas por que que esse sonho do senhor não aconteceu?

Quando o PT nasceu era duro nascer um partido político. A gente tinha que legalizar o partido em 15 estados da federação, tinha que ter 20% do município, tinha que ter não sei quantos filiados em cada município e tinha que ter 3% dos votos nas eleições. Agora vai ter um pouco de seriedade quando a nova lei começar a entrar em vigor. Mas você percebe que fazer partido político hoje virou empreendedorismo? Você percebe que o partido do Bolsonaro não existia ontem e que agora, por causa de uma eleição, eles vão receber R$ 400 milhões ou mais do fundo partidário? Qual a empresa que vai ganhar R$ 400 milhões do nada?

Eles já estão brigando entre eles…

Criar um partido político virou… São microempreendedores. Eu pego dois ou três deputados, eu crio um partido político, doa a direção estadual para cada um deles e doa uma parte do fundo que arrecadar. Não pode continuar assim. Assim esse país nunca vai ser altamente democrático. 

É difícil imaginar uma coalizão negociando com 50 pessoas, com 50 partidos. É difícil, pergunte a quem já foi presidente. E eu acho que nós vamos ter que mudar. 

E eu sonhava em criar uma frente ampla, sabe? Trazer todo mundo. Desde o tempo do [Leonel] Brizola a gente imaginou fundir… É difícil fundir o PT com o PDT… Metade dos partidos teriam que abrir mão dos seus candidatos: o PT pela esquerda, o PDT pela direita… Falei para o Brizola: não dá, sabe? Os partidos não abrem mão do seu – como é que chama? – Logotipo.

E o PT também não abre, né?

O PT se construiu brigando. Quando nós fizemos uma reunião em 1980 para criar o PT lá em um hotel em São Bernardo do Campo, tinha 90 deputados e tinha o Fernando Henrique Cardoso também. E o FHC dizia “ah, tem que mudar de nome, porque Partido dos Trabalhadores não dá”. E eu já completava dizendo “aqui não tem mudança de nome, não, se quiser entrar é Partido dos Trabalhadores”.  Os trabalhadores são maioria, por que eu tenho que mudar o nome? E graças a Deus, deu certo. 

O PT, para a desgraça dos meus adversários, é o mais importante partido político de esquerda da América Latina. Nós não queremos nos comparar nem ao cubano nem ao chinês, mas ninguém tem a experiência democrática. Qual é o partido no Brasil que faz um PED [Processo de Eleições Diretas] como nós fizemos, de 380 mil pessoas comparecem para votar? Qual o partido que faz isso?



Mas o PT também enfrentou uma onda de ódio muito grande.

Enfrenta ainda. Você não acha que o Flamengo, que tem a maior torcida do Brasil, não enfrenta ódio? Você sabe que o vascaíno pensa do Flamengo? Você sabe o que um palmeirense pensa do Corinthians? Assim são os outros pensando do PT.



Mas é diferente, né presidente, um clube de futebol e um partido.

Não, não é diferente. A sociedade é dividida assim, querida. São Paulo tem São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos… O resto não conta. O Rio de Janeiro tem Vasco, Botafogo, Fluminense e Flamengo… O resto não conta. 

Os partidos políticos são divididos assim. No Brasil, tem um partido político, o PT. Tem o PCdoB que é um partido político, legalizado. Se você for perceber, a maioria dos partidos políticos no Brasil sequer tem registro definitivo porque se você não tiver registro definitivo, você pode intervir em qualquer estado e em qualquer cidade. Se tiver um problema financeiro no partido do Acre, a direção nacional não assume. Agora, se você tiver registro definitivo, o problema é teu. Então, o PT é o único partido político que tem registro definitivo em todo o território nacional.

O MDB não tem?

O MDB não é partido político. Veja a história política do Brasil. O MDB são uma nação indígena com tribos diferenciadas que falam línguas diferentes em cada estado e em cada cidade. O MDB do Paraná não tem nada a ver com a direção nacional, que não tem nada a ver com o MDB do Maranhão, que não tem nada a ver com o MDB de Rondônia… Cada tribo é uma tribo. Vou te dar um exemplo: não tem ninguém que foi mais traído do que a melhor pessoa do MDB, que era do doutor Ulysses Guimarães. 

Depois da majestosa participação dele na Constituição de 1988, depois dele ser candidato a presidente da República, ele só teve 5% dos votos para presidente porque o MDB, no Brasil inteiro, traiu ele. Todo mundo trabalhou para o Collor. E continua assim até hoje. 

Nesse país, pode ter certeza, com todo o respeito a todas as legendas, só tem um partido político que funciona como partido político: é o PT. 

E, por isso, somos atacados dia e noite. E eu acho que é o seguinte: nós temos que brigar. Quanto mais atacado a gente é, mais a gente tem que se defender. Eu acho que essa é uma das razões, Marina e Thiago, que eu resolvi vim para cá. Porque eu poderia não ter vindo. 

Eu vim para cá porque era preciso resistir. Era visível que a Lava Jato estava se transformando em um conluio e numa quadrilha. Era visível. Era visível que gente era presa e a primeira pergunta que fazia era: “E o Lula? Conhece o Lula? Sabe do Lula?”. A senha era falar o nome do Lula. Esse Moro e aquele Bolsonaro tinham orgasmos múltiplos quando falavam o nome do Lula, não importa se fosse mentira.

Eu queria aproveitar perguntar das eleições para 2020. Como o senhor está imaginando a estratégia do PT daqui para frente com essas mudanças, inclusive, de legislação e da questão dos vereadores, de ser cabeça de chapa ou não ser cabeça de chapa. Enfim, qual a estratégia que o senhor está imaginando para o PT?

Tudo o que eu vejo aqui é pela imprensa, tá? Dizem que o PT não vai ter candidato em Porto Alegre, dizem que o PT não vai ter candidato em Florianópolis. O PT não tem candidato no Paraná, que o PT tem dificuldade em ter candidato em São Paulo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo. Quando terminar as eleições, o que será do PT? Como é que você vai ganhar o carnaval se você não se apresenta? Como seu porta-estandarte e o mestre sala vai ganhar algum prêmio, vai ter nota do juiz, se ele não se apresenta?

Então a ideia é ter cabeça de chapa?

O PT pode não ter cabeça de chapa em alguns lugares, mas na medida em que o PT é o partido mais importante, e o PT tem muitos quadros, as pessoas não podem ser candidatas apenas quando elas têm conveniência pessoal. Num partido como o PT o partido tem que fazer prevalecer a sua vontade e decidir quem vai ser candidato. Para o bem do partido, porque um bom candidato elege vereador; um péssimo candidato diminui a bancada. 

As pessoas têm que saber que o PT perdeu milhares de vereadores nas últimas eleições. Foi a pior performance do PT. Pelo fato de você ter perdido as eleições em 2016, não significa que você enfia o rabinho entre as pernas como cachorro magro sarnento e fica quietinho, para não aparecer. Não. 

É nessa hora que você tem que ir para a rua. É nessa hora que você tem que dizer por que você existe, tem que desafiar o seus desafetos. É nessa hora que você tem que se defender. Ora, qual a melhor oportunidade se não as eleições?

O senhor já tem os candidatos?

Não, eu não tenho candidatos e não quero escolher. Eu acho que o PT pode tranquilamente apoiar o [Marcelo] Freixo no Rio de Janeiro. Tranquilamente. Teria o maior interesse se fosse convidado e tivesse voto em apoiar ele lá. Mas veja, a Benedita da Silva é uma personalidade política. O Lindbergh [Farias] é uma personalidade política. Ora, do que as pessoas têm receio de ir para a rua? Ora, vai, disputa as eleições, e quando chegar no segundo turno diz: “meu voto é de fulano”. Nada de Crivella, nada de Eduardo Paes. 

Em Minas Gerais é a mesma coisa. O PT tem candidatos bons e um deles é o Patrus Ananias, que já foi prefeito. “Ah, eu não quero ser”. Peraí, quando você quer ser, você chega no partido diz que quer ser e o partido é obrigado a obedecer. Agora, o partido precisa de você, por que é que você não é? Mas se ele não quer, tem outras pessoas. 

Eu, pelo menos, me encanto com uma professora que tem em Minas Gerais, a Bia [Cerqueira], que foi presidente da UTE [Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais]. Eu acho ela extraordinária. Seria novidade, seria uma mulher, inteligente, bonita, boa de briga…. Mas “ah, o PT tem compromisso com o [Alexandre] Kalil então não vai”. Então digam a verdade. 

No Rio Grande do Sul, o PT tem dois ex-governadores, Tarso [Genro] e Olívio Dutra. O Olívio Dutra já foi prefeito, Tarso já foi prefeito, Raul Pont já foi prefeito, Miguel Rossetto já foi vice… Sabe, não tem candidato por quê? Por que vão apoiar a Manuela [D’Ávila, do PC do B]? Eu sou favorável que, se a gente não tiver chances, que a gente apoie a Manuela. Mas deixar de colocar o PT na rua… Quantos vereadores a gente vai eleger? É isso que eu defendo. 

Eu não sou contra aliança, não… Onde o PT não tiver candidato, o PT apoia. É só ver nossas alianças em outros estados.

E no caso de São Paulo o senhor acha que a Marta Suplicy pode voltar para o PT? Parece que ela deu uma carta pro senhor.



Eu não acho. Eu retribui uma pergunta feita. Eu tive muitas relações com a Marta e com a família da Marta e com o Suplicy. Nós devemos muito a eles, porque vivemos muito na casa deles. E a Marta sempre foi uma figura de muita cortesia com o PT, de muita cortesia comigo e com a minha mulher, sabe? Antes de eu ser presidente, depois de ela ser prefeita. Então eu não misturo a minha relação pessoal com a minha relação política. Quando ela quis sair do PT por problemas que são de ordem pessoal, e xingou o PT, sabe, ela tinha suas razões, o PT tinha suas razões.

Ela disse que o PT era um partido corrupto.

Eu lembro que o Mangabeira tinha dito isso quando eu coloquei a pedido do Zé Alencar o Mangabeira de ministro. Aí eu fui anunciar o Mangabeira e a imprensa perguntou “Ai, mas ele chamou o PT de corrupto.” Aí eu falei “É uma boa hora para vocês perguntarem pra ele. Chama ele. Mangabeira, a imprensa quer saber por que você chamou o PT de corrupto.” 

Olha, a Marta que se explique. Mas o PT não pode negar o direito dela querer conversar com o PT, e o PT conversar com ela. Se ela vai ser candidata do PT, acho difícil. Acho muito difícil. 



Mas as portas estão abertas pra essa negociação?

As portas estão abertas para conversa. Eu sei que o Jilmar [Tatto]  já foi conversar com ela. Eu sei que o Emídio [De Souza, ex-presidente do diretório do PT em São Paulo] já foi conversar com ela, eu sei que a Gleisi [Hoffmann, presidente do PT] já foi conversar com ela. Não sei se o Haddad já foi conversar com ela. Mas a gente não pode deixar de conversar com uma figura como a Marta. Sabe, ela foi a melhor prefeita de São Paulo. Reconhecida pelo povo. Ela tirou uns dez pontos do Haddad na eleição passada quando foi pra prefeito. 

Então o PT tem outros candidatos, tentamos lançar o Aluízio Mercadante, tentamos lançar o Haddad – eu sou um dos que não quer que ele seja [candidato]–, tentamos lançar o José Eduardo Cardozo, tem o Padilha, que foi ministro e secretário da saúde de São Paulo, tem o Jilmar Tatto que quer ser candidato. Então, o PT tem nomes. 

Nós sabemos a dificuldade que nós temos, nós vamos enfrentar um governador e um prefeito, mais um ex-vice-governador e ex-governador, mais uma líder do governo. Como que o PT pode abrir mão dessa disputa, que é a chance que nós temos de ir para a rua e falar o que nós temos que falar, defender o que a gente acredita? Não pode. Aí se não for pro segundo turno, apoia. É assim que eu penso.

O senhor falou da Marta, e eu quero fazer uma pergunta bem pessoal que há muito tempo eu penso nisso. O senhor indicou a Dilma para presidência, foi a primeira presidenta do Brasil, mas mulheres fortes e petistas históricas como a Luiza Erundina, Marta Suplicy, Heloísa Helena, Luciana Genro, Marina Silva, todas acabaram saindo do partido em uma situação de briga, de discórdia. A Marina, por exemplo, foi derrubada do Ministério do Meio Ambiente, né. 

Marina, não é verdade.

É o que ela diz e é o que a gente mais ou menos percebe. Por que o senhor colocou o Mangabeira Unger, ela se sentiu numa condição…

Pera aí. Se um jogador que é titular do meu time se recusa a jogar porque eu escalei um outro jogador em outra posição, realmente essa pessoa não serve para trabalhar no coletivo. A Marina não pode ser injusta. Ela é evangélica e ela não pode cometer o erro de contar mentira. Eu vou lhe contar uma história. A Marina foi no meu gabinete e pediu para não ser ministra. Você sabe quem foi no meu gabinete pedir que eu não podia tirar a Marina? Dilma Rousseff e Gilberto Carvalho. E a Marina ficou mais um ano. A Marina saiu porque ela queria sair. Chega uma hora que as pessoas cansam de fazer a mesma coisa, ela tinha pretensões políticas. Depois dela entrou o [Carlos] Minc. E depois a Izabella [Teixeira].

Marina, eu tenho orgulho de ter indicado a Dilma presidenta da República. Eu tenho orgulho. 

Talvez eu tenha culpa de não ter contribuído para que ela aprendesse um pouco de maleabilidade política. Porque a Dilma foi indicada por mim porque ela foi a pessoa mais extraordinária que eu conheci do ponto de vista de seriedade, do ponto de vista de competência de gestão. 

A Dilma me deu a tranquilidade para governar esse país. Porque a Dilma, como não disputava nada com ninguém, sabe, a Dilma, a Graça [Foster, ex-presidente da Petrobras], a Miriam Belchior [ex-ministra do Planejamento, Orçamento e Gestão], a nossa ministra do combate à fome, a Márcia Lopes, essas mulheres me deram uma segurança. 

Porque o que eu pedia para elas não tinha chuva, não tinha raio, não tinha feriado, não tinha dia de finados. O que eu pedia, em poucas horas estava na minha mão. 

Eu achava engraçado que muitas vezes a Dilma entrava numa reunião – porque sempre ela fazia uma reunião antes com as pessoas – ela falava: “se alguém for mentir pro presidente, eu vou dizer que é mentira”. Aquilo me dava uma tranquilidade para governar esse país, sabe? Eu não tinha outra pessoa para escolher se não fosse ela. 

Eu tinha que entregar o país para alguém e a Dilma foi extraordinária presidenta. Eu confesso, e aí eu posso fazer uma autocrítica, eu, por cuidado e por zelo, disse que eu ia desencarnar do governo. E não é legal alguém que é ex ficar dando palpite. A não ser que a pessoa pedisse. 

E eu acho que eu procurei não ter influência na Dilma, diferentemente do que as pessoas acham que eu mandava no governo. A Dilma não aceita que ninguém mande no pedaço dela, tá? Ela não aceita nem o Lula nem o Papa Francisco. O pedaço dela é dela. Eu não sei se é de todas as mulheres assim, mas é verdade. 

O senhor disse antes que ela não disputava nada com ninguém.

Ela não disputava. Ela jamais imaginou ser candidata a presidenta da república.

Mas uma vez que ela foi…

Eu cometi um outro erro, que eu poderia ter discutido com ela 2014. Eu sentia a Dilma depois das eleições um pouco triste. A sensação de que não era aquilo que ela queria. Eu lembro que ela me disse: “nunca mais eu participo de um debate”. E a Dilma era uma mulher que conhecia o Brasil de cor e salteado. Ela tinha o Brasil na palma da mão. Eu coloquei ela como mãe do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] em junho de 2007. 

A Dilma conhecia cada coisa. Mas ela parece que tinha insegurança. Ela ia pro debate, sabe, escrevia verdadeiros livros para ir pro debate, ela não precisava de nada, ela deveria ir de mão e peito abertos. E eu não sei, eu sinto falta de não ter me metido mais no governo da Dilma. Sinto falta. 

Agora, se eu tivesse me metido, iam dizer: “caiu porque o Lula se meteu”. Porque também as pessoas vão criando outro círculo de amizade, outro círculo de confiança. Você tem que se mancar de vez em quando. 

Mas eu continuo dizendo pra você uma coisa, se tem uma pessoa que eu tenho um profundo respeito e admiração… Acho que faltou a ela e ao partido compreensão política sobre o impeachment. De qualquer forma, aconteceu e não adianta ficar chorando leite derramado. É tirar novo leite e começar.

O senhor deu uma entrevista para a BBC recentemente, em que o senhor afirma ter orgulho de Belo Monte. E Belo Monte é um tema que suscita muitas críticas ao seu governo e ao governo da Dilma. De fato, o senhor tem realmente orgulho, mesmo com todas as críticas do movimento indígena, os ribeirinhos, com todas as questões que o MPF colocou? São 25 ações, né?

As pessoas que hoje fazem crítica a Belo Monte, essas pessoas faziam antes. Tem gente que não aceita energia hídrica nem se o Papa Francisco vier aqui oferecer. Tem gente que acha que tem que ter um outro tipo de energia, a energia eólica, a energia solar, a biomassa. Tem gente que é contra isso, que é contra termelétrica, que é contra usina nuclear. Acontece que quando você é governo, você tem que fazer as coisas. Seria muito mais grave o dia que faltasse energia. 

Veja, quando nós começamos a pensar Belo Monte, a Dilma era ministra da Casa Civil. O Lobão era ministro de Minas e Energia e o Minc era ministro do Meio Ambiente. Depois o Minc saiu para ser candidato a deputado. A Dilma saiu para ser candidata à presidência, assumiu a Erenice e continuou o Lobão. E a exigência que eu fazia era que a gente só poderia construir Belo Monte, se fosse fio d’água. Não podia ter lago. 

Segundo, naquele tempo, a Odebrecht e a Camargo Correa tentaram boicotar o governo dizendo que não iam participar. Eu chamei o Lobão e disse que era uma questão de honra para o nosso governo. Nós não vamos virar refém de empreiteira. Se eles não quiserem participar, a Eletrobras assume a responsabilidade de coordenar o consórcio. 

E aí a Casa Civil foi cuidando disso com o ministro de Minas e Energia. Eu tenho aqui uma carta do MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens]. Foram feitos vários acordos com o MAB. Foi feito plano de desenvolvimento regional. Em outubro de 2010 eu assinei um decreto que instituiu um cadastro socioeconômico dos atingidos por barragens. Foi criado um comitê provisório para isso. 

A condição sine qua non que eu dei para fazer Belo Monte era que fosse conversado com todas as pessoas envolvidas. 

A questão de Belo Monte também tem várias terras indígenas afetadas. Não deveria ter sido programado o fortalecimento da Funai? 

Mas foi. Foi. Você pesquisa na história se em algum momento a Funai teve 10% do respeito que ela teve comigo, quando eu era presidente da República. Para começar a obra, a empresa teve que cumprir 60 exigências ambientais e sociais colocadas pelo Ibama e pelas populações locais. E ela cumpriu rigorosamente todas, ou não teríamos autorizado. 

Eu falo sempre que eu e a Dilma somos responsáveis pela construção de Belo Monte e eu não concordo com as críticas. Eu tive reunião com o Ministério Público, eu tive reunião com bispo, eu tive reunião com índio, eu tive reunião com sindicalista. E não foram poucas. 

Eu acho que a pessoa pode discordar, mas o que nós fizemos foi garantida a integridade dos 12 territórios [indígenas], uma área, 11 terras indígenas ocupadas pela população indígena do médio Xingu. Nenhum dos mais de 5 milhões de hectares ocupados por oito etnias foi alagado pela reserva. Só para você ter ideia: 12 reuniões públicas, 10 oficinas com comunidades, 15 fóruns técnicos, 4 deles em Belém, reuniões com gestores públicos na região do Xingu, 30 reuniões em aldeias indígenas com a participação de aproximadamente 1700 indígenas, visita dos agentes de comunicação social dos projetos, 5238 famílias, 61 reuniões de comunidade com a presença de 2100 pessoas e 10 palestras em escolas de ensino fundamental e médio para aproximadamente 530 alunos.

 Quer dizer, nós ainda fizemos um apanhado de 396 mil animais silvestres foram resgatados. Desses, 92% foram soltos e apenas 8% foram levados para instituições porque estavam feridos ou machucados. 

Então, deixa eu dizer uma coisa para vocês. Faz dez anos, eu deixei a presidência em 2010, a Dilma assumiu em 2011, as obras começaram a ser construídas em junho de 2011. Eu, pelo que eu conheço da Dilma, eu duvido que a Dilma tenha deixado começar alguma coisa sem cumprir os acordos que foram feitos. Duvido.

E por que então os resultados foram terríveis para as populações que estavam ali?

Eu gostaria que vocês procurassem a Izabella lá em Brasília, procurassem a Erenice lá em Brasília. Porque isso está escrito e documentado. Olha, 10 anos depois, você não pode perguntar para mim. 

Olha Lula, se o Brasil tinha PAA para comprar alimento para agricultura familiar, esse país tinha bastante escola técnica, esse país tinha isso e agora não tem mais, que culpa que eu tenho se entrou esses fascistas para destruir o país? Olha, se depois que tiraram a Dilma do governo as pessoas deixaram de cumprir os pressupostos acordados, o que que eu posso fazer? 

Altamira virou uma favela, mas aí não é culpa da hidrelétrica. É culpa do modelo de desenvolvimento. 

São Paulo tinha 2 favelas nos anos 70. Hoje tem 3 milhões de pessoas morando em favela. Então é preciso a gente ligar que possivelmente a hidrelétrica tenha sido motivação de muita gente sonhar que indo para Altamira ia ter algo que não teve. Eu não sei quem prometeu isso. 

A hidrelétrica foi feita para gerar uma quantidade de energia para ser colocada na rede federal para atender aos interesses produtivos desse país. E ela foi feita com todo o cuidado. 

Nessa linha ainda. O que diferencia a política do PT para a Amazônia daquela defendida por Bolsonaro e militares do atual governo? 

Você estava ainda nessa pergunta por causa de uma bobagem que o companheiro Raoni falou [o líder indígena afirmou à BBC que a luta dos indígenas contra Bolsonaro é a mesma que contra Lula e Dilma]. Eu vou te dizer que no nosso governo, a gente diminuiu 80% o desmatamento na Amazônia. A gente foi para Copenhagen e assumiu o compromisso, e foi aprovado em lei, que o Brasil iria diminuir a emissão de gases de efeito estufa em 80%. E nós cumprimos. Depois que a Dilma deixou o governo, cresceu 280% o desmatamento. 

Quando eu sair daqui, pode ficar certo que eu vou a Altamira.

Deixa eu perguntar uma última coisa. O senhor é um homem da política do ganha-ganha. A gente tinha uma visão da sociedade brasileira quando o senhor estava no governo, que havia conciliação possível. Foi o que o senhor sempre disse. O senhor descobriu que havia um Brasil, esse Brasil que votou no Bolsonaro, o senhor estava enganado antes? O que aconteceu? Onde estavam essas pessoas?

Essa gente estava onde tá hoje. Essa gente existe. Essa gente foi pra praia com você, muita dessa gente já almoçou com você, já jantou com você, já trabalhou com você. 

Essa gente não se manifestava porque logo depois que terminou o regime militar, era muito vergonhoso as pessoas assumirem que tinham alguma aliança com o regime militar. Nem os militares se apresentavam. De repente essa gente parece que ressurgiu, como os dinossauros. Essa gente tava aí e foi promovida pelo ódio disseminado pela política da Rede Globo de Televisão.

Volto a dizer, a Rede Globo tem muita responsabilidade pelo ódio disseminado nesse país. Porque ela pregou o ódio da política. Toda vez que você prega o ódio à política, o que nasce é pior. Você tá lembrado do Jânio Quadros, ele foi eleito com a vassourinha. Tá lembrado do Collor? Foi eleito com o mesmo discursinho. Toda vez que você levanta o discurso de que o problema do país é a corrupção, o que vem é pior.

O Bolsonaro conseguiu enganar um terço da população de que ele não era político, apesar de só ter trabalhado na vida na política. 32 anos de mandato, e conseguiu passar que não era político. Nunca entrou num partido que prestasse, porque ele não quer saber de partido, ele quer saber dele. 

Ulysses Guimarães falava: toda vez que se fala em mudança radical, o que vem é pior. 

É importante lembrar, Marina, que eu fui candidato várias vezes. Eu sempre tive 30% dos votos. Eu tive 17% em 1989, depois 24%, depois 32%, e depois eu ganhei. Mas a sociedade brasileira é ideologicamente dividida assim: você tem 30% que tá mais pra esquerda. Você tem 30% que tá mais pra direita, e você tem um pouco mais de um terço, que é a sociedade que fica na expectativa de ver o que vai acontecer, de ver se o candidato é bom. 

Você vê, eu tive 47%, a Dilma teve 47%, vou chegar a 60% no segundo turno, porque você conquista um pedaço. Então esse um terço o Bolsonaro ganhou uma parte através da mentira. Que pode chegar a 15% – que aí é o fake news. 

Quem vinha fazendo política há muito tempo sabia que existia uma indústria de fake news com discurso próprio. Como esse das hienas. 

Esse discurso das hienas não foi feito pra você, não foi feito pra mim, foi feito pros milicianos dele. Isso é dirigido. 

Então é assim, ele [Jair Bolsonaro] que era tão favorável a minha punição, que achava que eu reclamava demais… Eu vi ele na televisão. Você nunca me viu num gesto histérico como ele ontem. Um presidente não pode ser assim. 

Um presidente tem que ter calma. Um presidente, quando ele fala, ele tá falando pro povo. Se não, não tem necessidade dele ir na televisão. 

Agora, ele aprendeu a governar com fake news. Fake news é de quem não quer responder, de quem não quer falar. Fake news é de quem quer futrica. Então o presidente da República… Ele e o Trump. Outro dia eu vi uma matéria, o Trump conta não sei quantas mentiras por dia. Vocês já contaram quantas mentiras o Bolsonaro conta?

Ele não tem nenhum compromisso com a verdade. Aqueles filhos do Bolsonaro, eles sentem prazer de ser mentirosos. Eles não agem com seriedade. Então é o seguinte, esteja certa de uma coisa: esse ser humano que vos fala está com muita disposição de brigar nesse país. Eu não aceito a ideia de que o Brasil seja destruído como está sendo destruído. E o Bolsonaro falar as bobagens dele pra entreter o povo, entreter a imprensa, e o [Paulo] Guedes vai vendendo o Brasil, e vai vendendo o Brasil e daqui a pouco nós não somos mais uma nação. Perdemos a nossa soberania.

Então, eu espero que vocês estejam muito vivos e fortes pra ver esse país voltar a sorrir. Pode ficar certo, Marina. É muito melhor ser bom, é muito melhor ser agradável. Você come melhor, você dorme melhor, você tá de bem com a vida. Você imagina eu, não poderia estar aqui chorando? Estou aqui rindo pra vocês e dizendo pra vocês: primeira coisa que quero fazer quando sair daqui é casar outra vez. 

Fonte:Brasil de Fato| texto: Marina Amaral e Thiago Domenici

Confira as reações às revelações do caso Marielle: “Quem estava na casa 58?”

Como reagiram a família, políticos e partidos sobre a conexão entre Bolsonaro e os assassinos da vereadora


Presidente Jair Bolsonaro (PSL) publicou vídeo ao vivo nas redes sociais sobre reportagem do caso Marielle Franco / Foto: Reprodução

As novas revelações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), que ligam o presidente Jair Bolsonaro (PSL) aos assassinos, geraram uma avalanche de declarações nas redes sociais cobrando providências e investigação sobre os responsáveis pelo crime. 

No Twitter, Anielle Franco, irmã de Marielle, disparou: “Quem estava na casa 58?”, citando o número da residência de Bolsonaro no Condomínio Vivendas da Barra, onde Élcio Queiroz esteve horas antes do assassinato da vereadora, segundo divulgou a TV Globo na noite desta terça-feira (29). 

Em nota, o PSOL, partido de Marielle, pediu “esclarecimentos imediatos” sobre o fato. “Nunca fizemos qualquer ilação entre os assassinos e Jair Bolsonaro. Mas as informações veiculadas hoje são gravíssimas. O Brasil não pode conviver com qualquer dúvida sobre a relação do presidente da República e um assassinato. As autoridades responsáveis pela investigação precisam se manifestar”, declarou o presidente nacional do partido, Juliano Medeiros.

No Twitter, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) afirmou que a bancada do partido solicitou uma “reunião urgente” com o ministro chefe do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Tofolli. “O Ministério Público precisa ter a autorização do STF para seguir com a investigação e revelar ao Brasil quem mandou matar Marielle.”

A presidenta do PT, a deputada federal Gleisi Hoffmanm (PR), se solidarizou com a família de Marielle e com o PSOL: “Quem vai ter que se ver com a polícia e com a Justiça é sua família, Eduardo Bolsonaro. Envolvida com Queiroz, com as milícias e agora citada no caso do assassinato de Marielle e Anderson. Se a banda tocar é para vocês”. 

Carlos Lupi, presidente do PDT, foi irônico. “Cito Brizola: ‘Tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?”, indagou. 

A deputada federal Talíria Petrone (PSOL- RJ), considerada herdeira política de Marielle, também utilizou o Twitter. “Quais são as relações de Bolsonaro com membros de grupos de extermínio? Quem dentro da casa de Bolsonaro poderia saber que Élcio ia na casa de Ronnie Lessa no dia do assassinato? Quem mandou matar Marielle?”

“Descontrolado”

Minutos após a reportagem do Jornal Nacional, Jair Bolsonaro foi às redes sociais e fez um pronunciamento ao vivo. Visivelmente nervoso, o presidente disparou contra a emissora carioca. “Um jornalismo podre da TV Globo, canalha e sem escrúpulos. Vocês não prestam, esculhambam a família, só promovem o que está dando errado”, afirmou. 

Em outro trecho, o presidente pede apoio ao governador do Rio de Janeiro. “Eu não tive acesso ao processo, senhor [Wilson] Witzel. Eu quero falar sobre o processo. A partir da madrugada dessa quinta-feira, estou à disposição de vocês.”

No Twitter, internautas criticaram o tom do presidente e alertaram para o nervosismo do ex-militar. A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) também comentou o pronunciamento do presidente. “Está assumidamente descontrolado e nervoso na própria live em que faz para tentar se defender. Algo estranho no ar”, finalizou a parlamentar. 

Entenda o caso

Denúncia divulgada pela TV Globo sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes apontam que o principal suspeito dos crimes citou o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), no caso. Com isso, as investigações devem ser levadas para o Supremo Tribunal Federal (STF), por conta do foro privilegiado de Bolsonaro.

Segundo as revelações do Jornal Nacional, na noite desta terça-feira (29), a Polícia Civil do Rio de Janeiro teve acesso ao caderno de visitas do condomínio na Barra da Tijuca, na zona sul do Rio de Janeiro, onde vivia a família Bolsonaro e o ex-policial militar Ronnie Lessa, acusado pelo Ministério Público e pela Delegacia de Homicídios de ser o autor dos disparos que mataram a vereadora e seu motorista.

Horas antes do crime, em 14 março de 2018, Élcio Vieira de Queiroz teria anunciado na portaria do condomínio que iria visitar Jair Bolsonaro e acabou indo até a casa do PM reformado. Élcio é acusado pela polícia de ser o motorista do carro usado no crime. Os dois suspeitos foram presos em 12 de março deste ano.

Conforme apresentou o JN, no dia da visita, Bolsonaro estava em Brasília e não em sua casa no Rio de Janeiro.

Bolsonaro negou o envolvimento no assassinato da vereadora, por meio de um  vídeo ao vivo nas redes sociais e chamou o governador do Rio de Janeiro de “inimigo”. Ele ainda ameaçou a não renovação da concessão da TV Globo em 2022. “Acabei de ver aqui na ficha que o senhor [Witzel] teria vazado esse processo que está em segredo de Justiça para a Globo. O senhor só se elegeu governador porque o senhor ficou o tempo todo colado no Flávio Bolsonaro, meu filho”, disse.

Segundo o presidente, Witzel teria vazado a informação da investigação porque é pré-candidato à disputa presidencial em 2022.

*Com colaboração de Igor Carvalho.

Fonte: Brasil de Fato|Edição: Vivian Fernandes

Reforma da Previdência é aprovada e aposentadoria fica mais difícil para trabalhador

Dos 81 senadores, 60 votaram a favor da PEC 6; Em 10 anos, governo quer deixar de pagar R$ 800 bilhões em benefícios


Para ser aprovada, a reforma precisava de 48 votos. O senador Davi Acolumbre (DEM-AP) comemorou o resultado / Agência Senado/ Jefferson Rudy

O Senado aprovou, em segundo turno, a reforma da Previdência Social proposta pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL), em janeiro deste ano.

A PEC (Proposta de Emenda Constitucional) número seis recebeu 60 votos a favor e 19 contra, a reforma tira direitos fundamentais de mais de 100 milhões de brasileiros, que estão no mercado de trabalho formal, informal ou já são aposentados e pensionistas. Os destaques individuais apresentados pelos senadores foram rejeitados.

As lideranças que orientaram as bancadas a votar a favor da reforma foram: MDB, Podemos, Republicanos, PSL, PSC,  PSDB, Democratas e Progressistas. PT, Rede, PSB e PDT se posicionaram contra. O PSD, Pros e o Cidadania liberam a bancada para votar. 

“Todos perdem. Não tem ninguém que ainda vai se aposentar que não vai ter algum direito retirado por conta dessa PEC”, explicou o senador Paulo Paim (PT-RS).

O relator da reforma foi o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que defendeu as mudanças. “O texto chega a quase um consenso nessa Casa. Temos que encerrar isso hoje. Não podemos fazer nada que faça esse projeto para a Câmara. O texto não é perfeito, mas dentro da diversidade da Casa é o melhor texto possível”, argumentou.

::Entenda o que muda com a reforma da Previdência::

A reforma estabelece uma idade mínima de 65 anos para os homens e 62 anos para as mulheres com tempo mínimo de contribuição de 20 anos e 15 anos, respectivamente. O valor, porém, será equivalente a 60% da média do valor de referência das contribuições, ou seja, o equivalente à renda do trabalhador na ativa.

Para ter direito ao valor integral, a partir de agora, trabalhadores devem contribuir por 40 anos. Na prática, o trabalhador e a trabalhadora terão que trabalhar muito mais tempo, além do limite da idade mínima, para ter direito ao valor integral.

Pela regra em vigor anteriormente, o valor integral do benefício era garantido pela fórmula 86/96. A soma da idade e do tempo de contribuição para homem deveria ser igual a 96, sendo obrigatório um mínimo de 35 anos de contribuição. Para as mulheres, a aposentadoria integral poderia ser concedida se a soma da idade e do tempo de contribuição (30 anos no mínimo) atingisse 86 pontos.

A reforma também acabou com a regra da aposentadoria por idade, que exigia 15 anos de contribuição e idade mínima de 60 anos para a mulher e 65 anos para os homens. De cada dez aposentadorias concedidas, sete eram por idade. 

Exemplos

Atualmente, um trabalhador que hoje tem 65 anos de idade e 29 de contribuição, pela regra antiga da aposentadoria por idade, poderia se aposentar por idade daqui a um ano. Para a aposentadoria por tempo de contribuição, daqui a seis anos. No entanto, com a regra nova, ele só vai se aposentar com direito ao valor integral do benefício daqui a 11 anos.

Uma mulher com 56 anos de idade e 26 anos de contribuição precisaria esperar só mais um ano para conseguir se aposentar (regra 86/96). Com a reforma, essa mesma trabalhadora terá que esperar seis anos para se aposentar com o valor integral.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) destacou que a reforma foi cruel porque só atingiu a classe trabalhadora e os mais pobres. 

“Não teve nenhuma discussão para falar da tributação sobre o capital acumulado. Sobre as grandes fortunas, sobre a concentração de renda. A investida é contra o trabalhador que está lá dentro da mina, no pesado e ganhando pouco”, assinalou o Rede. 

Rigidez

Com a alteração das regras, que distanciam os trabalhadores dos benefícios, o Estado deve retirar, no mínimo, R$ 800 bilhões do montante pago em aposentadorias, auxílios e pensões pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), em dez anos, segundo a análise do próprio governo. 

No texto apresentado pelo Executivo no começo do ano, com regras ainda mais rígidas do que as que foram aprovadas nesta terça, a reforma tinha uma previsão de cortar R$ 1,2 trilhão dos benefícios em uma década.

Para a oposição, a reforma descaracteriza completamente os princípios da Seguridade Social, estabelecidos na Constituição Federal de 1988, como um sistema de distribuição de renda e proteção social em todo território nacional.  

Na votação em primeiro turno, no dia 1° de outubro, a reforma teve 56 votos a favor e 19 contra. 

Nos dez meses de tramitação no Congresso, a proposta de reforma do governo foi perdendo volume, por conta dos protestos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais.

Por exemplo, foi rejeitada a regra de capitalização individual; a regra que determinava um valor menor da pensão caso a viúva não tiver filhos; fim da regra que permitia valores menores que um salário-mínimo para as pensões e benefícios para deficientes carentes.

Pararela

Os debates no Congresso sobre as regras da Previdência não terminam com a aprovação da PEC 06/19. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) está analisando a PEC 133/19, a chamada PEC paralela. Nela estão os pontos polêmicos que ficaram de fora, por enquanto, da reforma. Por exemplo, a inclusão dos estados e municípios na reforma; a tributação das entidades filantrópicas e o fim da isenção para as exportações do agronegócio.

Transição

Para os trabalhadores que estão perto de se aposentar terão que cumprir um pedágio, um período a mais de contribuição, de acordo com o tempo de faltaria pela regra antiga, mais idade mínima. As regras mudam para os servidores públicos e para os trabalhadores da inciativa privada. Confira os modelos de transição veja aqui.

O senador José Serra (PSDB-SP) argumentou que as regras aprovadas não são suficientes e que espera mais arrochos para reduzir os custos com os pagamentos das aposentadorias e pensões.

Fonte: Brasil de Fato|Edição: Rodrigo Chagas

Intercept revela “plano paranoico” de Bolsonaro para explorar Amazônia

Documentos e áudios inéditos obtidos pelo portal mostram projeto discutido desde fevereiro para povoar Amazônia “contra chineses, ONGs e Igreja Católica”

governo de Jair Bolsonaro está discutindo, desde fevereiro, o maior “plano de ocupação e desenvolvimento da Amazônia” desde a ditadura militar. Gestado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, com coordenação de um coronel reformado, o projeto Barão de Rio Branco retoma o antigo sonho militar de povoar a região, com o pretexto de a desenvolver e proteger a fronteira norte do país.

Documentos inéditos obtidos pelo The Intercept Brasil detalham o plano, que prevê o incentivo a grandes empreendimentos que atraiam população não indígena de outras partes do país para se estabelecer na Amazônia e aumentar a participação da região norte no Produto Interno Bruto do país.

A revelação surge no momento em que o governo está envolvido numa crise diplomática e política por conta do aumento do desmatamento no Brasil. Bolsonaro se comprometeu a proteger a floresta em pronunciamento em cadeia nacional de televisão, mas o projeto mostra que a prioridade é outra: explorar as riquezas, fazer grandes obras e atrair novos habitantes para a Amazônia.

O plano foi apresentado pela primeira vez em fevereiro deste ano, quando a secretaria ainda estava sob o comando de Gustavo Bebbiano. O então secretário-geral da Presidência iria à Tiriós, no Pará, em uma comitiva com os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Damares Alves, dos Direitos Humanos, para se reunir com entidades locais.

Bolsonaro, no entanto, não sabia da viagem. Foi surpreendido pelas notícias e vetou a comitiva — uma das razões que culminaram na crise que tirou Bebbiano do governo em 18 de fevereiro. O plano acabou sendo apresentado dias depois só pelo coronel reformado Raimundo César Calderaro, seu coordenador, sem alarde, em reuniões fechadas com políticos e empresários locais.

Parte do conteúdo do encontro foi revelado no mês passado pelo Open Democracy. O Intercept, agora, teve acesso a áudios e à apresentação feita durante uma reunião organizada pela Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos no dia 25 de abril deste ano na sede da Federação da Agricultura do Pará, a Feapa, em Belém. A secretaria afirmou ter reunido a sociedade, academia e autoridades locais para ouvir opiniões e sugestões que guiarão os estudos sobre o programa. Mas os documentos, até agora inéditos, revelam que indígenas, quilombolas e ambientalistas parecem ter ficado de fora da programação.

Na apresentação, os responsáveis esmiuçaram a preocupação do governo com a “campanha globalista” que, de acordo com o material, “relativiza a soberania na Amazônia” usando como instrumentos as ONGs, a população indígena, quilombola e os ambientalistas. E afirmaram ser necessária a execução de obras de infraestrutura — investimentos “com retorno garantido a longo prazo” —, como hidrelétricas e estradas, para garantir o desenvolvimento e a presença do estado brasileiro no local.

Por Rede Brasil Atual