Em 2021 precisamos lutar por um PT melhor que o de 2020

“É fundamental disputarmos, pela esquerda, as posições do Partido dos Trabalhadores, pois ele possui um papel estratégico na luta pelas transformações populares e democráticas que o país necessita”. *Por Patrick Campos

Foto: Reprodução

O ano de 2020 vai terminando, para a maioria das trabalhadoras e dos trabalhadores, pior do que começou. Evidente que após um ano de governo Bolsonaro, em 2019, com a aprovação da reforma da previdência e de ataques contra a educação pública, o meio ambiente e à democracia, só para citar alguns exemplos, as expectativas nunca foram muito altas. Mas 2020 certamente conseguiu superar as previsões até daqueles mais pessimistas.

Até agora mais de 191 mil brasileiros e brasileiras morreram em decorrência da covid-19 (ao menos os casos notificados) e o desastre sanitário é apenas uma das faces da moeda. Junto com ela, os país mergulhou ainda mais na crise econômica e social que tem como marca o golpe de 2016 e a implantação das políticas neoliberais como a reforma trabalhista, a lei da terceirização, a lei do teto de gastos e o congelamento dos investimentos públicos, além do desmonte das políticas sociais.

O fato é que milhões de trabalhadores e de trabalhadoras que terminaram o ano de 2019 com uma carteira assinada, estão terminando 2020 sem saber como irão pagar as contas. Milhões de trabalhadoras e de trabalhadores informais, que já tinham perdido seus empregos ao longo dos anos anteriores e que conseguiram sobreviver de alguma maneira em razão do auxílio emergencial, não contarão com nenhum auxílio em 2021.

É por isso que as perspectivas para o próximo ano são tão terríveis quanto a do atual, principalmente quando analisamos o resultado das eleições municipais e quais forças políticas começarão ou continuarão a governar a maioria da população nas cidades do país. 

Apesar da situação vivida ao longo deste e dos últimos anos, a maioria dos eleitores que compareceram às urnas em 2020 votaram em candidaturas de direita. Ou seja, foi a direita, que é diretamente responsável pela situação que vive o país, que saiu vitoriosa nas eleições, obtendo a “legitimidade das urnas” para aprofundar ainda mais as políticas neoliberais em curso.

Mas então, o que pode acontecer? Tudo, inclusive nada.

Uma opção é tudo continuar como está. A crise se aprofunda; os novos governos municipais, em sua maioria de direita, não vão promover políticas de assistência e auxílio para o povo, que estará cada dia mais pobre e o país irá rapidamente regredindo para uma condição de miséria e desemprego semelhante àquela existente na primeira metade do século passado.

Outra opção é a das coisas melhorarem momentaneamente, em decorrência de algum voo de galinha na economia que permita a direita (Bolsonaro e os demais governos locais) segurarem a onda com vistas a eleição de 2022. Mas esse cenário tem poucas probabilidades, dadas as condições reais da economia brasileira e mundial, a continuidade da pandemia e a ausência de uma campanha de vacinação.

Uma outra opção, que é a aquela que devemos agir para que ocorra, é a do país viver um novo período de mobilizações sociais. Isso também não é algo fácil de acontecer, pois tem inúmeras variáveis para considerar, como a própria continuidade da pandemia, mas se setores da classe trabalhadora entrarem em luta, pode ser aberta uma janela para algum avanço no campo da luta política que permita vitórias pela esquerda.

Mas em todos esses cenários, e até para que esse último aconteça, é preciso que a esquerda em geral e o Partido dos Trabalhadores em particular, tenham uma conduta totalmente diferente daquela que prevaleceu em 2020. Ou seja, que vá para além da atuação institucional e parlamentar.

Pela própria condição imposta pela pandemia, fora o período eleitoral, a principal arena de combate em 2020 foi o campo institucional, com prioridade para o parlamento. Isso não pode se repetir em 2021. As forças de esquerda precisam dedicar a maior parte de suas energias na organização e mobilização popular, na disputa cultural e no enfrentamento a todos os setores da direita.

Isso, evidentemente, não é uma tarefa fácil. Mas se 2020 não foi fácil e 2021 não tende a ser diferente, a opção é lutar incansavelmente.

Mas como dizem por aí: E o PT?

É fundamental disputarmos, pela esquerda, as posições do Partido dos Trabalhadores, pois ele possui um papel estratégico na luta pelas transformações populares e democráticas que o país necessita. Como as próprias eleições municipais demonstraram, sem o PT, a esquerda brasileira que tem priorizado a atuação institucional, é reduzida a quase nada de substancial. Mas mesmo com o PT, a arena institucional é absolutamente insuficiente.

Se prevalecer a atual linha política e as atuais táticas que orientam a maioria do PT e também a maioria dos demais partidos e organizações de esquerda, 2021 pode ser um ano de mais derrotas e ainda menos acumulo de forças.

Como dito, setores da classe trabalhadora podem ou não se mobilizar e entrar em luta, mas até para que esse cenário possa ocorrer ou, se caso ocorram mobilizações e lutas espontâneas sem a participação direta dos partidos e organizações, estes possam ter alguma influência, a linha política precisa ser totalmente diferente desta existente em 2020.

Infelizmente os sinais não provocam otimismo, como aqueles relativos a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A maioria da bancada dos partidos de oposição e a maioria da bancada do PT adotaram uma tática desastrosa, de se colocar na condição de ter que escolher qual setor da direita cheira menos a enxofre. Um erro imenso, que é revelador do que pode vir de 2021.

No entanto, apesar dos sinais ruins, outros bons sinais devem animar todas e todos que acreditam que a classe trabalhadora pode dar uma resposta pela esquerda. As mobilizações dos trabalhadores por aplicativos e as lutas antirracistas e das torcidas organizadas que ocorreram no Brasil entre os meses de maio e junho; os bons ventos que sopram de países vizinhos como Argentina e Bolívia; e a presença de vozes contundentes e jovens na disputa de rumos do PT como a da deputada federal Natália Bonavides (PT-RN), demonstram que a luta ainda está sendo travada.

É por isso que, nesta última semana deste fatídico ano de 2020, estas e outras preocupações não devem desaparecer da cabeça daquelas e daqueles que não veem a hora de derrotarmos o governo Bolsonaro, colocarmos um fim em suas políticas e darmos um passo a diante na luta pela construção de um outro modelo de sociedade no Brasil.

Devemos torcer, mas principalmente devemos agir e dedicar todas as nossas energias para que a década que se inicia seja uma década em que os ventos da luta socialista soprem sobre todas e todos nós.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

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A ultradireita quer o poder, de qualquer jeito

Por isso, não se deve ter moderação ou qualquer tipo de dúvida sobre a necessária derrota da ultradireita. Enquanto eles estão se preparando para uma batalha pelo poder, nós não podemos nos preparar para pedir que as pessoas digitem um número numa urna eletrônica em algum momento do futuro. É preciso muito mais.

Foto/Reprodução

O Brasil passa de 15 mil mortes em decorrência da covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, no momento em que diversos estados e cidades do país completam dois meses de políticas de distanciamento e isolamento social. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde declarou estado de pandemia da doença, que até o momento contaminou mais 4 milhões e matou mais de 300 mil pessoas no mundo

Enquanto alguns países, que adotaram medidas mais intensas de distanciamento e isolamento social, iniciam processos de retomada de suas atividades e que suas curvas de contaminação e mortes começam a descer, o Brasil vive uma situação inversa.

A quantidade de pessoas contaminadas e de mortes cresce a cada dia, mesmo com uma evidente subnotificação dos casos. Mesmo assim, o governo federal combate as políticas de isolamento e incentiva as aglomerações, como reiteradamente vem ocorrendo em mobilizações organizadas por seus apoiadores, principalmente do setor empresarial.

Com o baixo número de testes e a queda de braço do presidente com os governos estaduais e prefeituras para derrubar as medidas de isolamento, a situação mais provável para o Brasil é que não tenhamos um retorno das atividades tão rápido. Pelo contrário. Justamente por esta situação, o que estamos vendo neste momento são medidas que buscam ampliar o isolamento, por meio de decretos municipais e estaduais, bem como de decisões judiciais que determinam o chamado lockdown, ou seja, um confinamento.

Esta medida poderia não ser necessária se o governo federal tivesse assumido o papel de coordenar as medidas de enfrentamento da pandemia desde o começo. Acontece que o governo federal passou a agir como um aliado do vírus, seja defendendo uma contaminação de “rebanho” e um isolamento vertical, seja atrasando e criando dificuldades para a implementação de políticas como a renda básica emergencial.

Esta aliança se dá principalmente a partir do presidente Jair Bolsonaro. Antes da pandemia o Brasil já vivia uma profunda crise econômica e social. Mais de 12 milhões de pessoas estavam desempregadas, a informalidade atingiu seu recorde com quase 40 milhões de pessoas nesta situação, sem falar no crescimento da fila de pessoas para o Bolsa Família e o retorno do país para o mapa da fome.

Ocorre que com a pandemia, aquela situação, que já era resultado da política de austeridade iniciada por Temer e aprofundada por Guedes e Bolsonaro, piorou muito. O programa ultraliberal da dupla Guedes-Bolsonaro jogou ainda mais pra baixo o padrão mínimo de vida do povo, principalmente dos mais pobres.

Se durante o primeiro ano de Bolsonaro já estava absurda a quantidade de pessoas perdendo seus empregos, vendendo de tudo dos semáforos e se submetendo a regimes de trabalho desumanos por aplicativos que mais dão prejuízo do que remuneram, com a pandemia este cenário se agravou ainda mais.

Mas se agravou porque a opção feita pelo governo Bolsonaro, coerente com seu programa, é de proteger da crise somente os seus empresários aliados. Mesmo que o custo dessa proteção sejam milhares de vidas humanas. De tal forma que Bolsonaro se comporta mesmo como um aliado do vírus, usando a crise sanitária para aprofundar a crise social, causar novas crises políticas e resolver o problema econômico de seus aliados.

É evidente que este projeto não será implementado de forma pacífica e por meio das regras institucionais. É por isso que temos visto, desde o início da pandemia, um acelerado processo de endurecimento das medidas tomadas pelo bolsonarismo. Se em 2019 eles fizeram inúmeros ensaios, tanto para avançar quanto para saber até onde poderiam ir “dentro das regras”, em um 2020 de pandemia eles começaram a jogar pra valer.

É neste jogo a sério que o núcleo duro do bolsonarismo pesou, mediu e agiu para demitir Mandetta, para tirar Moro e para reforçar a presença militar nos principais postos do governo. Como eles não estão preocupados em governar, mas em conseguir o poder de fato que a eleição presidencial não entregou inteiramente, podem assumir qualquer tipo de desgaste.

Desgaste, diga-se de passagem, que tem sido usado como lenha para atiçar a base bolsonarista mais radical contra a centro-direita, o Congresso Nacional, o STF e alguns veículos dos grandes meios de comunicação, além de tentar liquidar a esquerda como um todo. Ou seja, na conta, o desgaste sofrido por um lado, reforça o apoio de outro. Enquanto isso, este outro lado recebe autorização para adquirir mais munições e para não ser responsabilizado por suas ações.

As ameaças em formato de artigo publicado pelo vice-presidente General Hamilton Mourão na última quinta-feira (14), apenas puxou um pouco mais para o sol e tirou das sombras o seu já conhecido alinhamento integral com o autoritarismo. De tal forma que a opção desejada por alguns, de um bolsonarismo sem Bolsonaro, colocou literalmente, para não fugir as raízes nefastas da expressão, sua “cara ao sol”. E é a mesma coisa.

Por estes móvitos é fundamental que não tenhamos ilusões com o momento que estamos vivendo. A ultradireita quer avançar, com e apesar da pandemia. Para eles a situação atual é útil para justificar as medidas de endurecimento que eles precisam para implementar o programa ultraliberal.

E do jeito como as coisas estão se desenrolando, qual o motivo que eles possuem para querer que a pandemia cause menos mortes ou passe mais rápido? A extrema direita é uma aliada do vírus, pois não se importa com a morte dos mais pobres. No fundo, é isso mesmo que eles desejam, de um jeito ou de outro.

Por isso, não se deve ter moderação ou qualquer tipo de dúvida sobre a necessária derrota da ultradireita. Enquanto eles estão se preparando para uma batalha pelo poder, nós não podemos nos preparar para pedir que as pessoas digitem um número numa urna eletrônica em algum momento do futuro. É preciso muito mais.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

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QUEM DISSE QUE A CONSCIÊNCIA NÃO PODE SER NEGRA?

 

 

É muito interessante quando pessoas racistas ou ignorantes criticam o “Dia da Consciência Negra” com depreciações, desdém ou preconceitos como se o movimento negro estivesse promovendo uma espécie de “racismo disfarçado”. Para essa gente seria necessário criar o “Dia da Consciência Branca”, garantindo assim uma equiparação de direitos.

Num país miscigenado, multicultural e tão desigual como o Brasil, os símbolos e representações servem tanto para demarcar posições, defender interesses ou manter privilégios. As cores vêm sempre acompanhadas de alguma explicação ou intencionalidade. Nesse sentido, pensar o Novembro Negro, o dia da Consciência Negra, é pensar na cor que representa histórias de violências, injustiças, invisibilidades contra o povo negro, mas acima de tudo, de lutas, riquezas culturais, conquistas sociais já alcançadas, assim como tantas outras ainda por alcançar.

Algumas questões sobre o cotidiano e a forma como as cores são usadas para representar as relações entre pretos e brancos podem nos dizer muito sobre as desigualdades raciais e o atraso que atinge principalmente as populações afrodescendentes desse país. Por exemplo, quando nos deparamos com expressões do tipo: “a coisa tá preta”,  “lista negra”, “mercado negro”, “magia negra”,  “ovelha negra”, “negra maluca”, “samba do crioulo doido”, o racista, ou quem  reproduz o racismo, não se incomoda em associar a cor preta a algo ruim ou sem valor. Para essas pessoas isso é “super-normal”.

No entanto, quando pretos e pretas, resolvem utilizar a sua cor para se defenderem e até mobilizar a sociedade em busca de mais igualdade e oportunidades, os mesmos racistas ou reprodutores do racismo os acusam de serem incoerentes, segregadores, oportunistas ou “vitimistas”. Daí se compreende que a cor do racista é cor da conveniência daqueles que temem perder privilégios. Para esses o despertar da consciência do negro, a força da sua mobilização, é motivo para escândalo. Racistas odeiam ver o nosso povo ocupando lugares que até então eram ocupados apenas por brancos — já que é necessário manter as coisas como sempre quiseram: negro nasceu para servir, branco nasceu para ser servido.

Ao considerarmos a cor predominante sobre determinadas situações, cabe perguntar:  qual é a cor da população carcerária no Brasil? Qual é a cor dos cursos de medicina, engenharia civil, direito? Qual é a cor das empregadas domésticas? Qual é a cor dos que ocupam a direção das empresas milionárias desse país? Qual é a cor do extermínio de jovens nas periferias?  Qual é a cor do padrão de beleza? Qual é a cor dos catadores de uva e manga que saem do João de Deus, José e Maria e tantas outras comunidades de Petrolina, e vão para as  fazendas de fruticultura do Vale do São Francisco? Qual é a cor dos seus patrões?

Quando se leva em conta as grandes fortunas, o luxo, as regalias, o sucesso, a realização pessoal e profissional, a cor, geralmente, é branca, na maior parte do ano. Quando se leva em conta a dureza da vida, a ralação, os corres, o serviço pesado, o sufoco, a humilhação, a cor, geralmente, é preta, na maior parte do ano. Como é possível, diante de tamanha desigualdade que pretos e pretas não possam reivindicar ao menos um mês para lembrar a essa sociedade o quanto de injustiças são cometidas contra o povo negro ao longo de mais de quatro séculos? Como não tirar ao menos um mês para lembrar da importância das suas lutas para o desenvolvimento da nação?

Só racista convicto ou gente muito ignorante não consegue compreender que enquanto a maior parte da população, composta por pretos e pardos, continuar excluída de direitos e violada na sua dignidade esse país será somente o país do atraso. É contra tudo isso que lutamos no dia de hoje e lutaremos todos os dias, até o dia em que não presenciemos mais violências raciais. Essa luta começou com os nossos antepassados, há mais de 400 anos. Portanto, ter consciência negra é ter consciência da luta por um país mais justo.

Viva Dandara! Viva Zumbi! Viva Marielle Franco! Viva mestre Moa do Katendê! Viva a resistência do Povo Negro!

 

Gilmar Santos – Professor de História e vereador na Câmara Municipal de Petrolina

Contra Bolsonaro e o antipetismo – Mais Petismo!

“[…] é preciso dar eco ao programa de governo que aponta para mudanças radicais no país, começando com a revogação de todas as medidas golpistas, como a reforma trabalhista, a terceirização e a PEC da morte. É com este programa que devemos sair às ruas e ir às urnas”. *Por Patrick Campos

Patrick Campos Araújo – Foto: Facebook

Esta é a primeira eleição desde 1994 que a disputa real pela Presidência da República não está polarizada entre o Partido dos Trabalhadores e a candidatura do PSDB.

Por um lado, ao contrário do que alguns desejaram, anunciaram e profetizaram o PT não morreu. E é justamente ele quem segue aglutinando e representando os desejos e sonhos da ampla maioria da classe trabalhadora. É ao PT, e não a outro partido de esquerda, que as camadas populares seguem recorrendo para travar a disputa real contra seus adversários de classe.

Por outro, é o PSDB quem afunda. Sua candidatura não consegue sair do lugar, empacado e sem votos, vê a extrema direita avançar e garantir uma candidatura no segundo turno, antecipando uma polarização que eles só conseguiram nas últimas eleições após uma difícil disputa com outras candidaturas, em especial a de Marina Silva.

Assim, a tendência é termos uma eleição que já no primeiro turno se configura com dois polos antagônicos, figurando de um lado a candidatura da extrema-direita e do outro a candidatura do Partido dos Trabalhadores. Caso Lula não tivesse sido impedido de ser candidato, seria ele quem terminaria o primeiro turno à frente. Haddad, todavia, já desponta como candidato com total possibilidade de passar para o segundo turno, se não empatado, com uma pequena diferença entre ele e Bolsonaro.

E o centro de tudo isso é justamente o Partido dos Trabalhadores. É o que o PT representa que Bolsonaro e a extrema direita estão combatendo. É, portanto, na defesa do PT e do programa petista que precisamos responder. Se Bolsonaro cresce se alimentando do antipetismo, a resposta não pode ser outra que não MAIS PETISMO.

Por isso, alternativas como Ciro Gomes, que caminham na direção de também enfrentar o PT, não se credencia para derrotar a extrema-direita. Por isso o voto útil em Ciro, no momento em que Haddad cresce, passa a ser um voto muito pouco útil para derrotar a extrema-direita. Afinal, não é Ciro, tampouco seu programa que a extrema-direita está agindo para derrotar. A derrota do PT seria a consagração da extrema-direita, que chegaria ao segundo turno muito mais fortalecida.

É por isso que todas as forças e energias das camadas populares, das organizações de esquerda e forças democráticas precisam estar focadas no fortalecimento da candidatura de Fernando Haddad desde o primeiro turno. E é isso que as pesquisas de opinião já apontam de forma muito incisiva, mas que não devem servir para gerar acomodação, mas sim para gerar mais mobilização.

Para auxiliar nessa mobilização é fundamental que o PT e a campanha de Haddad reafirmem de forma contundente algumas questões. A primeira delas é a denúncia da prisão política de Lula e o compromisso de acabar com este absurdo como um dos primeiros atos do novo governo.

Além disso, é preciso dar eco ao programa de governo que aponta para mudanças radicais no país, começando com a revogação de todas as medidas golpistas, como a reforma trabalhista, a terceirização e a PEC da morte. É com este programa que devemos sair às ruas e ir às urnas.

E não menos importante, a caracterização do golpe e de todos os golpistas como responsáveis pelo fortalecimento da extrema-direita no país. Por isso que a aliança para vencer e governar deve ser com os setores populares e que possuem compromisso com um programa democrático, de ampliação de direitos e enfrentamento ao fascismo. Não é tarefa fácil, mas é a tarefa necessária que se impõe principalmente ao Partido dos Trabalhadores.

**Patrick Campos é Advogado, mestrando em Educação pela Universidade de Pernambuco e Vice-presidente do PT de Petrolina-PE.

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Das lições do Golpe16

“[…] brasileiro e brasileira que reconhece a importância do voto agora vai analisar muito bem em quem estará votando para vice-presidente do país, da associação comunitária, da cooperativa, do grêmio escolar, etc”.  *Érica Daiane Costa

Foto: Arquivo pessoal

Desde 2016 o Brasil vem vivendo intensas consequências do Golpe político (parlamentar, jurídico e midiático) que retirou da presidência da República a mineira Dilma Roussef. Após as patéticas cenas do “eu voto em nome de”, o vice presidente Michel Temer assumiu o poder e passou a sancionar a cada dia a retirada de diversos direitos. Aprovou-se Reformas que impactam negativamente a vida da população, aumentou impostos, cortou e congelou recursos investidos em aspectos básicos como saúde e educação, diminuiu o poder de compra das classes mais baixas, ou seja, contribuiu significativamente para acirrar a crise econômica instaurada no Brasil.

Além de todos os (mal) feitos, o presidente oportunista virou motivo de piada nas redes sociais, ganhando um alto índice de rejeição pela população brasileira e até em outros países. Uma coisa, porém, pode ser tirada como lição disso tudo: brasileiro e brasileira que reconhece a importância do voto agora vai analisar muito bem em quem estará votando para vice-presidente do país, da associação comunitária, da cooperativa, do grêmio escolar, etc.

E eis agora um momento essencial para isso. Você já avaliou quem é o/a vice do/da candidato/a a presidente/presidenta que você está pensando em votar para governar o país? Pois vou ajudar aqui apontando apenas três nomes mais cotados hoje no cenário político, isso conforme a discussão na sociedade e não apenas com base em pesquisas encomendadas/direcionadas.

Você que está querendo votar em Ciro Gomes, sabe quem é Kátia Abreu? Ela é empresária e senadora pelo Tocantins. Já foi ministra no Governo Dilma mas antes disso integrava o MDB e era uma ferrenha defensora dos agrotóxicos. Foi Kátia que contribuiu com uma política ambiental voltada para as grandes empresas do agronegócio, favorecendo empreiteiras e empresas privadas na exploração dos bens naturais que possuímos no Brasil. Ela também já se mostrou racista, foi acusada de corrupção e defendia a proposta descabida da Escola sem partido. Kátia Abreu é a vice na chapa encabeçada pelo candidato Ciro Gomes.

Já o candidato que foi atingido por uma faca semana passada em um comício em Minas Gerais apresenta como vice o general Mourão (Antônio Hamilton Martins Mourão). Esse general hoje integra o quadro de reserva do Exército brasileiro e em 2017 chegou a defender o uso das Forças Armadas para resolver o que ele chamava de problemas políticos. Foi o general Mourão que chamou o torturador Carlos Brilhante Ustra de “herói”, um homem que foi responsável por quase 50 mortes e diversos desaparecimentos durante a Ditadura Militar no Brasil.

O candidato Fernando Haddad, apoiado pelo ex presidente Lula, que há cinco meses está preso para não ser candidato a presidente da República mais uma vez, traz como vice a jornalista e deputada federal pelo Rio Grande do Sul Manuela D’Ávila. Manuela é mãe, já foi vereadora, deputada mais votada em seu estado e agora integra uma chapa junto com o ex prefeito de São Paulo e ex Ministro da Educação Fernando Haddad. Manuela iniciou sua vida política no Movimento Estudantil e toca em temas vistos como polêmicos no país, porém que fazem parte do dia a dia da maior parte das famílias brasileiras como homossexualidade, racismo, aborto, violência contra a mulher, entre outros.

É hora portanto de analisar as histórias de vida e, principalmente, de atuação política, as propostas e assim votar no projeto de sociedade que melhor representa a vida e não à morte, seja da natureza ou das pessoas. É importante lembrar das conquistas que a população mais pobre vinha alcançando e que estão sendo totalmente arrancadas nesses últimos dois anos. Não se deve esquecer também que o Golpe não foi encerrado e muito ainda está por vir até o dia 07 de outubro.

Outra análise simples de se fazer é de que não adianta entrar na onda do voto de protesto votando no pior para o país, foi assim que Tiririca foi eleito deputado. É preciso construir novos nomes para as próximas eleições, fortalecendo inclusive a candidatura de uma mulher para a presidência novamente, porém, nesse momento, Brasil, é preciso votar e disputar o voto de outras pessoas para eleger a dupla que fala a língua do povo. Militares, sanguinários, machistas, homofóbicos, defensoras de venenos, racistas não nos representam. Apostemos na dupla que entende de educação, emancipação, mobilização social, igualdade de gênero, gestão pública… e carrega a marca da mudança promovida pelo nordestino Lula da Silva.

 

*Jornalista, Mestranda em Educação Cultura e Territórios Semiáridos, Assessora de Comunicação do IRPAA, Formadora da Organização de Comunicação Popular Carrapicho Virtual  e membro da Agência de Comunicação Chocalhos.

fonte: https://pontocritico.org

Da Escrevivência à luz: Corpos estranhos em busca do existir

Bidimbo, sistema de escrita africanos/ fonte: Ceert

Há uma cognição científica solidificada através de uma força dominante e genocida que vem sendo exercida há muito mais de dois mil anos, tratando as questões da “cosmologia universal” (do eu mesmo) acerca de dimensões da razão-verdade como exercício de controle e poder sobre os corpos estranhos que aqui habitam a nossa biosfera terrestre.

Ao longo desses tempos, esses corpos estranhos vem experimentando a vida de maneira peculiar e desrespeitosa (digo até que afrontosa) frente à dinâmica imposta pela “verdade” eurocêntrica justificada nas teorias platônicas no que diz respeito ao “si mesmo” como “sujeito pensante” dotado de um intelecto que é independente em relação ao meio em que vive e ser superior por reunir razão e sabedoria em uma pessoa só.

Afrontar essas forças estruturantes trata-se, mesmo que custe centenas de milhares de vidas, de um método de sobrevivência e uma estratégia para manter-se vivo. Além de experimentar um potencial pleno da verdade sem ruídos, deixando de lado a superficialidade dos fatos e mergulhando na imensidão do cosmos, passaporte direto para conectarmos ao nosso Orí, harmonizando o corpo e equilibrando a mente.

Este ensaio trata-se mais de uma provocação reflexiva sobre o domínio que o Ocidente têm em relação às nossas vidas. Trata-se de questionar a santa trindade da cosmologia platônica (a ordem, a organização e a harmonia) que classifica o “eu pensante” isolado/independente – possuído pela razão – como “objeto” e negando o “sentido simbólico” – eu cósmico, “sujeito” complexo em símbolos e sentidos; a intuição – gerando a separação e o afastamento da relação cósmica para objetificar os processos aproximando-se de uma cognição científica estruturada na “verdade” do objeto e da negação do sujeito.

Trata-se também de externar a minha cruel poética na busca do conhecimento, fruto de um exercício penoso e doloroso do encontro com o eu mesmo, materialmente falando, os cinco sentidos, e o cosmos – a imaterialidade, a intuição, o sagrado, o orgânico, o verdadeiro – a inter-relação com o meio, a temporalidade e a memória. O eu cósmico.

Não dá para fazer qualquer análise da nossa conjuntura sem apontar como pauta central as questões raciais, e como o homem branco ocidental é responsável pela destruição das civilizações pretas. Destruir uma civilização significa desmantelar seu sistema espiritual, exterminar as inovações tecnológicas ali presentes, desfazer sua economia, desarranjar toda a sua cultura e exterminar/explorar seu povo.

Enquanto me debruço nas leituras centradas em saberes que foram dizimados pela supremacia branca, é estarrecedor me enxergar como brasileiro e negro diante de uma ‘nação’ que nos adoece, que disputa o tempo inteiro nossas cabeças, que nos envenena, que nos educa diante das suas perspectivas incoerentes, que nos encarcera e que também nos extermina.

É preciso questionar o pensamento dominante, uma vez que o eurocentrismo estudou nossa gente sem compreendê-la, e nos interpretou sem ao menos nos conhecer. Vou precisar de tempo para dar conta dos entendimentos sobre as afroperspectivas que diz respeito ao berço da humanidade, e sei que não será fácil vivenciar uma experiência intelectual cheia de responsabilidades no que diz respeito à soberania dos nossos saberes. Mas quero adiantar minhas pró-vocações, haja vista a temporalidade em que estamos inseridos, diante de um contexto de censura e violência. O amanhã é incerto para jovens negras e negros, então eu me utilizo do hoje para reverberar meus sonhos através da minhas ideias inquietantes e questionadoras.

Esse que vos escreve, pede licença aos seus Ancestrais.

Peço licença também às mais velhas, aos mais velhos, e, principalmente, às mais novas e aos mais novos. Escrevo-vos porque em meio à disputa do conhecimento, repensar meu papel enquanto jovem negro, educador e estudante em formação docente é de fundamental importância para questionar as metodologias e práticas pedagógicas que nos são apresentadas.

É preciso garantir e despertar o senso crítico para compararmos sistematicamente as ‘verdades’ do colonizador e as insubmissões dos povos que nos antecederam e que até hoje resistem, utilizando a nossa narrativa histórica como ferramenta crucial para que o povo negro não fique apenas nas notas de rodapé e em etc nos textos científicos nas visões eurocêntricas limitadas. Saibam que etc para nós é Educação, Tecnologia e Cultura Ancestral.

Aqui, trago minha escrita carregada de energia que só quem sente sabe, que só quem é de verdade, sente. Apresento nesta poética o momento em que é preciso ficar desnudo da racionalidade aprendida, re-aprendida e passada por todos esses milênios de geração para geração. Aqui, trago comigo a experiência de estar de frente ao espelho e me enxergar diante de mim mesmo, tendo um encontro com o cosmos, com o Eu, com o divino. É doloroso. É cruel. Há medo. Às vezes falta força. Mas é preciso ter coragem de pular do penhasco, enfrentando o seu ínfimo, e acreditar que tenho asas e posso voar. É preciso experimentar a resiliência como processo de autocrítica e ressignificação para viver o amor interno, pois é dessa forma que visualizo a possibilidade da re-construção do processo da narrativa histórica relativizando o cosmos da perspectiva ocidental, e assim ressignificá-lo como ferramenta espiritual de um povo.

Não sei aonde e nem quando concluirei esse ensaio, pois precisaria de muitas páginas dessas para dar conta de organizar toda essa inquietação poética (um dia talvez, epistemológica) que estou me disposto a re-construir, de forma a coadjuvar na escrevivência (como rememora Conceição Evaristo), além de repensar pra quem servirá essa escrita que estou-estamos tramando. Mas é aqui mesmo que quero agradecer de coração cheio de sonhos a Esù, guardião das porteiras do meu caminhar e proclamador da tecnologia que reverbera em minha consciência para externar esse ebó da comunicação e da informação. (Lá na porteira eu deixei meu Sentinela, eu deixei Esù tomando conta da cancela. Laroyè. Esù é Mojubá!) Gratidão!

Esù é Orixá da comunicação, sem ele seria impossível a comunicação com o mundo espiritual.

Bem, questionando-me sobre a vida, e aprendendo com os ensinamentos das pessoas mais velhas, mais novas e também as do meu tempo, entendi que o sentido dela e de estarmos aqui é o caminhar. Viver é caminhar, e o caminho que percorremos diz exatamente quem somos e quem queremos ser, portanto nossa ação aqui neste chão é caminhar com passos firmes, com a cabeça sempre alcançando os passos dos pés.

A História está diretamente ligada à vida, pois a vida é uma história narrada continuamente. Quem está narrando a tua história e a história dos seus descendentes? A História também diz respeito a um tempo, espaço e memória.

Sem intenções de me aprofundar – neste momento – sobre as fundamentações e teorias da construção do pensamento histórico como narrativa, quero deixar registrado que ao tempo que é desconfortável reivindicar a narrativa histórica numa afroperspectiva, também é complicado lidar com a repercussão negativa em torno dela, uma vez que para a branquitude  ainda é um problema ver pretas e pretos reivindicando suas narrativas.

No Brasil, as opressões são vividas de diversas maneiras, e antes de pautarmos classe, gênero, escolaridade, localização geográfica, precisamos ser honestas/os e tomar como ponto de partida as questões etnicorraciais. A temporalidade da construção do pensamento ocidental enraizado nas entranhas filosóficas e científicas não é tão distante, e os povos que nos antecederam sempre estiveram em constante disputa pela reconstrução desse pensamento. No entanto, pegando o gancho das palavras de um irmão querido – o Diegão, esse que corre trechos no fortalecimento das nossas memórias e afetividades -, nunca devemos perder de vista que “somos iguais, mas somos diferentes.” Respeitar a diversidade não é querer igualar os desiguais, é respeitar e/ou garantir direito para os desiguais. Eu sigo acreditando que somos todos imigrantes neste mundão de minha Mãe, e que devemos estar em constante harmonia para encontrarmos nosso equilíbrio.

O conhecimento é uma chave preciosa para o acesso direto com à consciência, e uma passagem entre Ancestralidade e tempo presente, permitindo uma projeção e construção de um futuro. Ora, se o ser humano faz parte do cosmos e possui uma relação de intimidade com outros seres cósmicos, por que a construção do processo da narrativa histórica da filosofia a respeito da cosmologia permeia uma historicidade hierarquizada na cosmovisão platônica?

Não pretendo responder tal questionamento de maneira soberba ou superficial. Acrescento ainda que futuramente quero elencar de forma mais fundamentada, buscando auxílio teórico e prático, para sustentar minhas perspectivas que compartilho neste ensaio. Nesta ocasião, quero apenas divagar sobre as inquietações cotidianas que andam perambulando na mente deste jovem negro sonhador, e que através de suas escrevivências consegue brilhar e sentir a luz. Luminosidade essa que é composta pela luz/brilho das minhas/meus semelhantes.

Diante da cosmovisão platônica, fundamentada a partir da hierarquização e consequentemente do longo processo de colonização, é possível afirmar que a racionalidade em busca do “eu independente”, nos leva à uma solitude impedindo-nos do reconhecimento mútuo na totalidade, ignorando os sentidos simbólicos e gerando corpos estranhos que tentam existir, mas são apenas controlados pela grande estrutura de PODER. A Virtude e a Justiça, é o campo que considera os filósofos as pessoas mais inteligentes e importantes da sociedade, pois esses, e apenas esses, são responsáveis pela representação dos demais sujeitos inseridos no contexto social, categorizando-os enquanto trabalhadores braçais (escravos) e guerreiros (militares).

Eu tento apresentar uma afroperspectiva baseada em um processo íntimo e pessoal da descolonização do meu ser, haja visto, que nossa construção de conhecimento se deu por longas e demoradas gerações, a partir de uma educação colonizada e religiosa. A princípio, o cosmos nada tem a ver com religiosidade, e sim com espiritualidade.

Tratando-se de terras brasilis, com a chegada do homem branco e a invasão das nossas terras indígenas, há uma peculiaridade corriqueira da colonização em todo o mundo, que é preciso levar em consideração dentro das nossas análises (poéticas e ou epistemológicas), o fato da evangelização – destruindo a fé e colonizando nossos espíritos na propagação da religiosidade do homem branco -, das mercadorias – como moeda de compra dos nossos espíritos – e a militarização – como força repressora dos nossos corpos estranhos, na tentativa da normatização e homogeinização da sociedade como um todo.

Eis um bom caldo para endossarmos este embrião epistemológico e nos aprofundarmos em pesquisas mais detalhadas, mas como eu disse, por enquanto a intenção é apenas provocar e apresentar as incoerências deste pensamento colonizador que permeia todas as nossas estruturas sociais.

A História carrega uma especificidade em relação às outras Ciências, e futuramente eu quero me dedicar aos estudos dos movimentos diaspóricos e à reconstrução da nossa narrativa histórica. Aqui, quero ressaltar a importância de dissociarmos a representação do cosmos da religiosidade e vinculá-lo à espiritualidade. Sem querer levantar juízo de valor a qualquer  teórico ou estudioso, eu acredito que o sustentáculo do pensamento filosófico ocidental ainda é uma cadeia que estrutura a raiz política e social impedindo os sujeitos do encontro com o divino. Ora, se o conhecimento é a chave para a conexão com o nosso Orí, somos deuses e deusas responsáveis pelo equilíbrio e a harmonização deste plano terrestre. O conhecimento é uma Coroa pertencente às Rainhas e aos Reis.

Contudo, mas não por fim, ao tempo em que as pessoas negras estão discutindo a nossa negritude //enquanto disputa do conhecimento//, os brancos precisam discutir os reflexos da branquitude em uma sociedade que historicamente nega a nossa existência, e trata com estranheza os nossos corpos. Esse é um convite a experimentarmos a nossa humanidade e a do outro.  Contanto, precisamos nos fortalecer na construção de ferramentas, estratégias e metodologias para fazermos o enfrentamento dessa disputa do conhecimento, desconolizando nossas almas, nossas mentes e nossos corpos e correndo sempre em busca das nossas coroas de Reis e Rainhas.

Vamos atrás das nossas!

 

* Emanuel Lucas é Educador Popular, Coordenador Pedagógico do Instituto Cultural de Arte e Educação Nego D’Água e Estudante de História na Universidade de Pernambuco.

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POR UMA EDUCAÇÃO EMANCIPADORA E DEMOCRÁTICA

“A nossa liberdade de ensinar, expressa no artigo 206 da Constituição, nos legitima, ao tempo que nos protege da imposição de um único pensamento possível para a educação.E por isso, precisamos Transgredir”. Por Camila Roseno[1]:

Camila Roseno – Professora

O vereador Osinaldo Souza, enviou para Câmara Municipal de Petrolina – PE no dia 12 de abril de 2018, o Projeto de Lei (PL) nº 067/2018 que pretende criar no sistema de ensino municipal o Programa Escola Sem Partido. Não nos surpreende que este vereador proponha projetos com esse conteúdo, tendo em vista as diversas falas que o mesmo faz quando no uso da tribuna expõe o seu despreparo e o desrespeito aos Direitos Humanos, mesmo sendo esse o presidente dessa comissão[2].

Como pesquisadora do tema, atualmente cursando o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e orientada pela respeitada pesquisadora em estudos de Gênero e Educação, Professora Dra. Daniela Auad, venho através deste texto expor argumentos contra esse projeto, me baseando nas leis existentes em nosso país, nas decisões já ocorridas em diversas Câmaras diante desse “Programa” e na defesa de uma educação pública laica e que promova a cidadania, como prevista nas leis que regem o nosso sistema educacional.

Gostaria de iniciar fazendo uma crítica a própria escrita do projeto, para durante o texto me deter no seu conteúdo e nos seus objetivos ideológicos. Acredito que seja inadmissível, que proposições de leis contenham erros de acentuação tão grotescos, como visto na primeira linha, quando ao invés de “Câmara”, está escrito “Cãmara”. Se a preocupação é a qualidade da educação, argumento muito difundido, que você Osinaldo e sua equipe, tenham o cuidado em escrever ou em pelo menos copiar e colar o texto fazendo as correções necessárias. Isso só demonstra a falta de compromisso de vocês. Mas não irei me deter nisso, pois a intenção deste projeto é outra e são tantos erros que tenho até vergonha em pontuar.

O “Movimento Escola Sem Partido” (MESP)surge em 2004, obtendovisibilidade apenas em 2014. Segundo um dos fundadores, o objetivo inicialé o “combate a doutrinação política ideológica de esquerda”, que segundo eles, possivelmente ocorrem nas escolas do país. O “Movimento” alia esse objetivo a outro já bem conhecido “o combate a ideologia de gênero”, termo cunhado pelos conservadores com o intuito dedesqualificar os estudos de gênero consolidados na Academia desde os anos de 1970 em nosso país.

Para o “Movimento”, o doutrinador ou a doutrinadora é o docente que utiliza de argumentos que apenas favorecem o seu ponto de vista, que indicam livros relativos à sua ideologia, que desqualificam figuras históricas, que ridicularizam crenças religiosas, entre outras posturas. Devemos enfatizar que tal favorecimento ideológico é sempre precedido por um pensamento dito de esquerda.

Daniel Cara, ao apontar os objetivos do “MESP” declarados no site do movimento, destaca o perigo que representa para a educação. Segundo ele:

O Escola Sem Partido é inspirado em iniciativas internacionais e declara ter três objetivos: a ‘descontaminação e ‘desmonopolização’ política e ideológica das escolas’; o ‘respeito à integridade intelectual e moral dos estudantes’; e o ‘respeito ao direito dos pais de dar aos seus filhos uma educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções’. Qualquer exercício de julgamento sobre a observância desses três objetivos criará verdadeiros tribunais ideológicos e morais nas escolas, transformando o espaço escolar em um ambiente arbitrário, acusatório, completamente contraproducente ao aprendizado (CARA, 2016, p. 45).

Em todos os documentos emitidos pelo “MESP” e na presente lei que aqui apresento, sendo essa a cópia de outras tantas que estão sendo replicados pelo país, é recorrente o uso da Convenção Americana dos Direitos Humanos para legitimar o argumento que “professor não tem liberdade de fazer a cabeça dos alunos” e que “os pais têm direito a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções” (ESCOLA SEM PARTIDO, 2017). Entretanto, Salomão Ximenes, no seu artigo: “o que o direito à educação tem a dizer sobre ‘escola sem partido’?”, aponta a inconstitucionalidade dos argumentos jurídicos utilizados pelo “Movimento”.

Segundo ele, existe uma diferença entre educação formal, não-formal e informal, e o “Escola Sem Partido” desrespeita essa diferenciação ao entender que a educação formal, que é fortemente regulada pelo Estado, pode ser interpelada pelos interesses de cada família. Portanto:

O direito de escolha dos pais, não pode ser interpretado como um direito absoluto que se sobreponha aos objetivos educacionais públicos definidos nas normas educacionais, nos projetos pedagógicos e na abordagem didática dos docentes. Dizer isso, por outro lado, não esvazia o direito dos pais, já que esses continuarão atuando nas demais dimensões da educação sobre as quais é praticamente nula a intervenção direta dos agentes estatais. (XIMENES, 2016, p.56)

O primeiro projeto aprovado que contêm o teor desse “Programa” foi o “Escola Livre”, aprovado em 2016 no Estado de Alagoas e suspenso por liminar[3] do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Barroso, em uma Ação Direta de Insconstitucionalidade (ADI), em março de 2017. Nesta liminar, o Ministro destaca:

Violação do direito à educação com o alcance pleno e emancipatório que lhe confere a Constituição. Supressão de domínios inteiros do saber do universo escolar. Incompatibilidade entre o suposto dever de neutralidade, previsto na lei, e os princípios constitucionais da liberdade de ensinar, de aprender e do pluralismo de ideias (CF/1988, arts. 205, 206 e 214). […] Vedações genéricas de conduta que, a pretexto de evitarem a doutrinação de alunos, podem gerar a perseguição de professores que não compartilhem das visões dominantes. Risco de aplicação seletiva da lei, para fins persecutórios. Violação ao princípio da proporcionalidade (CF/1988, art. 5º, LIV, c/c art. 1º). (MEDIDA CAUTELAR, 2017, p. 02)

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, também emitiu uma nota técnica apontando a inconstitucionalidade do projeto de lei 867/2015 de Izalci Lucas, mas também, servindo de orientação para os outros tantos projetos que atualmente versam sobre o “Escola Sem Partido”. A Procuradoria aponta as respectivas razões:

(i) confunde a educação escolar com aquela que é fornecida pelos pais, e, com isso,os espaços público e privado; (ii) impede o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas (art. 206, III); (iii) nega a liberdade de cátedra e a possibilidade ampla de aprendizagem (art. 206, II); (iv) contraria o princípio da laicidade do Estado, porque permite, no âmbito da escola, espaço público na concepção constitucional, a prevalência de visões morais/religiosas particulares (MINISTÉRIO, 2016, p.2).

No Estado de Pernambuco, o PL 709/2016, proposto pelo deputado Joel da Harpa, foi arquivado por ter sido considerado inconstitucional[4]. Em Minas Gerais, o Ministério Público Federal[5], através da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão também enviou ofício à Câmara Municipal de Belo Horizonte apontando a inconstitucionalidade do Projeto de Lei nº 274/2017 que pretende também instituir este “programa”.

A ação do MESP é uma ação política orientada pelo conservadorismo, logo, contrária a agenda de direitos humanos propostas pelas instituições internacionais, pelos grupos progressistas e pelas principais tendências críticas de educação, a exemplo, da progressista libertadora proposta por Paulo Freire.

[…] o Escola Sem Partido trata o estudante como uma tábula rasa, que somente reproduz aquilo que escuta. Subestimam radicalmente a capacidade dos alunos pensarem por conta própria e desenvolverem raciocínios autônomos a partir de suas experiências na escola, na rua e na família. Ao contrário, a educação como prática de liberdade de Paulo Freire, tão criticado por ser um ideólogo da ‘doutrinação marxista’, valoriza tremendamente a necessidade dos jovens e adultos desenvolverem capacidades autônomas de leitura do mundo a partir do contato com a complexidade dos conflitos políticos (VASCONCELOS, 2016, p. 81).

Segundo bellhooks[6], esses setores conservadores, buscam através de um passado idealizado, tentar impor “ordem ao caos”, referindo-se às importantes mudanças culturais que ocorreram nas últimas décadas, que desestabilizaram papéis sexistas institucionalizados pelo patriarcado. Segundo a autora,

Os professores progressistas que trabalham para transformar o currículo de tal modo que ele não reforce os sistemas de dominação nem reflita mais nenhuma parcialidade são, em geral, os indivíduos mais dispostos a correr os riscos acarretados pela pedagogia engajada e a fazer de sua prática de ensino um foco de resistência. (HOOKS, 2013, p. 36)

E dessa forma, defendo nesse texto uma educação escolar sem amarras, uma escola sem mordaça, pois como direito garantido, a liberdade de catédra, nos protege em relação a toda essa censura que vem sendo imposta pelos setores fundamentalistas e por grupos contrários as agendas de direitos humanos. A nossa liberdade de ensinar, expressa no artigo 206 da Constituição, nos legitima, ao tempo que nos protege da imposição de um único pensamento possível para a educação.E por isso, precisamos Transgredir[7]!

Referências Bibliográficas

CARA, Daniel. O programa “escola sem partido” quer uma escola sem educação. In: A ideologia do
movimento Escola Sem Partido: 20 autores desmontam o discurso. Ação Educativa Assessoria,
Pesquisa e Informação (Org.). São Paulo: Ação Educativa, 2016. p. 43-48.

ESCOLA SEM PARTIDO. Educação sem doutrinação. Conteúdo disponibilizado em todo o site.
Disponível em: <http://escolasempartido.org/>. Acesso em 10 maio de 2017.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora
WMF Martins Fontes, 2013.

MEDIDA CAUTELAR NA AÇÃO DIRETA DA INCOSTITUCIONALIDADE 5537 ALAGOAS. Supremo Tribunal Federal. Brasília: 2017. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?incidente=4991079>. Acesso em 21 abril 2018.

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. Nota técnica 01/2016. Brasília, 2016. Disponível em: <http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/temas-de-atuacao/educacao/saiba-mais/proposicoes-legislativas/nota-tecnica-01-2016-pfdc-mpf> . Acesso em 21 abril 2018.

VASCONCELOS, Joana S. A escola, o autoritarismo e a emancipação. In: A ideologia do
movimento Escola Sem Partido: 20 autores desmontam o discurso. Ação Educativa Assessoria,
Pesquisa e Informação (Org.). São Paulo: Ação Educativa, 2016. P. 78-82.

XIMENES, Salomão. O que o direito à educação tem a dizer sobre “escola sem partido”? In: A
ideologia do movimento Escola Sem Partido: 20 autores desmontam o discurso. Ação Educativa
Assessoria, Pesquisa e Informação (Org.). São Paulo: Ação Educativa, 2016. p. 49-58.

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[1] Licenciada em História pela Universidade de Pernambuco (UPE), especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestra em Educação pela UPE, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Educação, Comunicação e Feminismos – Flores Raras. Autora da dissertação: “Escola Sem Partido: um ataque as políticas educacionais em Gênero e Diversidade Sexual no Brasil” disponível em:http://w2.files.scire.net.br/atrio/upe-ppgfppi_upl//THESIS/12/dissertacao_final_com_correcoes_da_banca_20170926165334374.pdf  e do documentário “Transgredir” resultado da sua dissertação e disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Xuhg9jbxSGI&t=207s> .

[2]https://pontocritico.org/23/03/2018/a-vereadora-marielle-franco-que-defendia-tanto-vagabundo-olha-o-que-aconteceu-diz-vereador-osinaldo-souza-veja-o-video/

[3]Medida Cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade 5537 Alagoas. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?incidente=4991079>. Acesso em 21 abr. 18

[4]Parecer final do PL 709/2016. Disponível em: <http://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-textocompleto/?docid=35BAB42F0DCAD1E103257F6C005656A6>. Acesso em: 01 jun. 2017

[5] MPF aponta inconstitucionalidade do projeto Escola Sem Partido da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Disponível em: <http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/noticias-mg/mpf-aponta-inconstitucionalidade-do-projeto-escola-sem-partido-da-camara-municipal-de-belo-horizonte>. Acesso em: 21 abr. 2018

[6]Letras iniciais em minúsculo, respeitando a escolha da própria autora de escrever o seu nome dessa forma

[7] Alusão ao livro da escritora bellhooks “Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade”.

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Carta da escritora Luciana Hidalgo a Lula: “o senhor fez uma revolução”

No DCM… Carta da escritora Luciana Hidalgo a Lula: ‘o senhor fez uma revolução’.

Imagem Diário do Centro do Mundo

Querido presidente,

O que o senhor fez no Brasil foi uma revolução. Não uma Revolução Francesa, que guilhotinou cabeças da realeza para exigir na marra liberdade, igualdade, fraternidade. Não, o senhor não cortou cabeças, nem expulsou ricos de suas propriedades privadas como a Revolução Russa, tampouco roubou a poupança das classes abastadas (como aquele presidente eleito no Brasil em 1989 roubou). O senhor manteve as elites ricas e contentes, mas foi mexendo dia após dia nos mecanismos de poder que excluíam perversamente os pobres da nossa sociedade e negavam o que todo país decente deveria garantir: sua cidadania, isto é, sua dignidade.

Por isso, de início, querido presidente, seus microgestos, sutis, pouco saíam nos jornais, mas abalavam gradativamente as estruturas viciosas do poder. Sou leitora de Michel Foucault e atesto que o senhor fez genial e intuitivamente, na prática, num país periférico e violento, muito do que esse célebre filósofo francês teorizou sobre micropoder. O senhor modificou, programa após programa, a microfísica do poder no Brasil.

Explico como: logo de início o senhor abriu crédito para ajudar pobres a comprar eletrodomésticos básicos; subsidiou a compra de tintas e materiais para que construíssem suas casas; criou o Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil, permitindo que pobres tivessem conta em banco; levou iluminação elétrica aos recantos rurais mais atrasados pela escuridão (Luz para Todos); criou o Bolsa Família, tirando 36 milhões de brasileiros da miséria e obrigando seus filhos a voltar à escola; levou água para milhões de brasileiros que sofriam com a seca no interior semiárido (programa Cisternas, premiado pela ONU); inventou Minha Casa Minha Vida, distribuindo moradias Brasil afora; criou Farmácias Populares que vendiam medicamentos com descontos para a população de baixa renda; implementou cotas raciais e sociais em universidades, contribuindo para que jovens negros e/ou vindos de escolas públicas pudessem estudar e no futuro talvez escapar de serem assassinados nas ruas do Brasil; implantou o Prouni (Universidade Para Todos), oferecendo bolsas para alunos de baixa renda estudarem em faculdades particulares; aumentou o salário-mínimo acima da inflação; etc.

Não me beneficiei pessoalmente de nenhum dos seus programas sociais, querido presidente. Sou brasileira privilegiada, nascida numa classe média da zona sul carioca. Fui jornalista nas maiores redações do Rio (Jornal do Brasil, O Globo, O Dia), depois virei escritora (premiada com dois Jabuti), fiz um doutorado e dois pós-doutorados em Literatura, na Uerj e na Sorbonne. E é justamente por isso, por tudo o que li, vi e aprendi, sobretudo na França onde morei durante anos, que posso dizer: países europeus só se desenvolveram porque aplicaram e aplicam projetos como os seus. Na França, por exemplo, o salário-mínimo é de uns R$ 4 mil (graças a décadas de greves e manifestações de trabalhadores “vândalos” por melhores salários); o seguro-desemprego dura de dois a três anos para que o desempregado não caia na miséria; há “locações sociais” que garantem moradia aos menos privilegiados; todos os remédios receitados nos hospitais públicos são dados ou subsidiados pelo governo etc.

O problema, querido presidente, é que quando uma parte da elite brasileira visita Paris, só vê a grande beleza. Finge não ver que aquela beleza só se sustenta graças à aplicação justa de impostos. Sim, as classes mais abastadas de lá têm consciência política, sabem que o equilíbrio social depende delas. No Brasil não. Tem brasileiro que gasta milhares de euros em turismo na França e na volta reclama dos R$ 300 dados mensalmente aos beneficiados do Bolsa Família.

Sim, querido presidente, é difícil entender a mentalidade desses que frequentaram os melhores colégios particulares do Brasil. Até entendo, já que eu mesma cursei um dos melhores colégios particulares do Rio e não aprendi grande coisa. Lá não havia disciplinas como Literatura ou Filosofia, por exemplo, que nos ajudariam a ter um pensamento mais crítico. Que pena.

Só aprendi o que era o mundo quando comecei a encarar a miséria do meu país de frente em vez de virar a cara ao passar por ela na rua. Ainda na adolescência participei de um grupo que dava comida para os sem-teto no Rio e pude ouvir suas comoventes histórias de vida. Depois virei jornalista e passei a ouvir mais pessoas, das mais variadas origens, das favelas, dos interiores, e suas justas reivindicações.

Portanto, saiba, querido presidente, que não só o povo beneficiado pelos seus programas sociais está ao seu lado. Somos muitos escritores, artistas, professores de escolas e universidades, pessoas premiadas, com títulos, das mais diversas profissões. Justamente por termos lido tanto (livros, não apenas jornais e revistas), viajado, justamente porque conhecemos o Brasil profundo, entendemos a grandeza do que o senhor fez. Nós também somos esse povo.

Aliás, há inúmeros políticos, historiadores, intelectuais estrangeiros nas maiores universidades da Europa que também o admiram. E se escandalizam, por exemplo, quando ouvem comentaristas brasileiros dizerem de forma tão elitista que o eleitor de Lula é “povão”, “nordestino”, “ignorante”, “petista”, “lulista”, “petralha”, “fanático”. Intelectuais estrangeiros se chocam com a criminalização de pobres, negros, índios e da própria esquerda no Brasil. E também se chocam quando o xingam de “populista”, como se o senhor usasse o povo. Ora, ora, mas o senhor é o povo.

No mais, querido presidente, não entrarei no mérito do seu julgamento. Primeiro porque não acredito em condenação sem provas. Segundo porque desde o golpe de 2016, que tirou do poder uma presidenta eleita pelo povo, desde o dia em que ficou provado (e gravado!) o conluio entre os Poderes “com o Supremo, com tudo”, não acredito mais nas nossas instituições.

Claro que a Lava Jato é importantíssima para o país, mas o partidarismo seletivo e o gosto pelo espetáculo a diminuem. Talvez por isso grandes juristas estrangeiros têm apontado falhas absurdas no processo que o condenou, querido presidente. Como disse o advogado inglês Geoffrey Robertson em entrevista recente à BBC de Londres, “o Brasil tem um sistema de acusação totalmente ultrapassado, em que o juiz que investiga, supervisiona a investigação, é o mesmo que julga o caso – e sem um júri!”. Outro jurista disse o mesmo num artigo no jornal The New York Times. Enfim, como acreditar numa justiça personalista, que num piscar de olhos pode beirar o justiçamento?

Nessas horas me lembro do que dizia Foucault: “Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. (…) A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro, em suas dimensões mais excessivas, e se justificar como poder moral.”

Sabe, querido presidente, quando a perseguição ao senhor começou na mídia, me lembrei do Betinho. Quase ninguém mais se lembra dele, o sociólogo Herbert de Souza, que criou associações de combate à fome e de pesquisa sobre a Aids nos anos 1990, quando os programas sociais do Estado eram insignificantes. Pois bem, esse cara, que devia ser coroado por seu esforço descomunal pelos pobres, um dia acordou sendo linchado da forma mais violenta pela imprensa por ter recebido doações de bicheiros. Os “puros” do país o atacaram de todos os lados, logo ele, “o irmão do Henfil” ex-exilado, hemofílico e soropositivo, tão magrinho, fiapo de gente, um dos poucos a combater a fome no Brasil. Mas não, para os “puros”, nada do que ele fazia pelos pobres compensava esse grande “erro”. Como se no Brasil houvesse dinheiro realmente “limpo”.

É, querido presidente, são assim os “puros”, os que não entendem a complexidade das lutas, os que fecham os olhos para as falcatruas dos ricos mas lincham o menino de rua da esquina, os que defendem uma ética que eles próprios não têm no dia a dia, enrolados em seus conchavos, compadrios, sonegações de impostos, corrupções de todo tipo. Das minhas andanças pelos bastidores do poder, posso dizer: os “puros”, mal acordam, já loteiam a alma.

É claro, querido presidente, que o senhor, além dos acertos, também cometeu erros. Quem não erra? Confesso que no início do seu governo estranhei, por exemplo, a sua aliança com a escória da política brasileira (PMDB etc.). Mas logo entendi que sem isso nenhum, nenhum, nenhum dos seus programas que revolucionaram o Brasil seria aprovado. Não sem esse toma-lá-dá-cá, não sem o cafezinho com o inimigo. Sonho sim com uma política pura, mas como, quando, se nunca, nunca, nunca foi assim nesse país?

Não vou, portanto, enumerar seus erros porque seus acertos os superam imensamente. Só a partir do seu governo entendi que a política pode muito mais do que o assistencialismo. Enquanto meus amigos e eu dávamos 50 quentinhas numa noite aos sem-teto do Rio, o senhor, com nossos votos, tirava milhões da miséria. Milhões de brasileiros.

O senhor acreditou antes de tudo na política, não em revoluções sangrentas radicais, para mudar o Brasil. E mudou. Não sou “lulista” nem “petista” (nunca me associei a partido algum), muito menos “petralha”. Mas, graças ao senhor, agora eu e milhões de brasileiros passamos a acreditar na política. E só por isso vale lutar.

Fico por aqui, no aguardo das eleições de outubro de 2018, quando um presidente de esquerda retomará o rumo desse Brasil desgovernado pelo conluio entre Poderes e onde, devido à corrupção, à leviandade e ao partidarismo das instituições, ideias fascistas se proliferam como bactérias.

Um grande abraço da
Luciana Hidalgo

Violência Cibernética Cristã: Por que seguidores de Jesus aderem ao discurso de ódio?

“Fraternidade é superar a violência
É derramar, em vez de sangue, mais perdão
É fermentar na humanidade o amor fraterno
Pois Jesus disse que “somos todos irmãos”
(Hino da Campanha da Fraternidade 2018, CNBB)

Imagem divulação

A violência é uma característica que sempre forjou as civilizações ao longo da história. Escravidão, tortura, guerras e abusos se deram das mais variadas formas. Vozes contra essa prática transgressora se levantaram, quase sempre de forma isolada e denunciatória. De Gandhi a Mandela, ícones do século XX, podemos também lembrar tantos outros menos conhecidos, mas de igual força e discurso semelhante.

É comum que muitas pessoas associem os discursos violentos às religiões. A proeminência de grupos terroristas de base islâmica fortaleceu um estereótipo altamente preconceituoso no Ocidente: o de que o Islã prega a violência, a intolerância e o ódio. Assim como o Alcorão, os evangelhos que narram a vida e a prática de Jesus de Nazaré transmitem mensagens de pacificação, respeito e amor. Mas, se essas mensagens estão tão marcadamente fortes nesses textos, por que existem religiosos que aderem ao discurso violento?

O cristianismo promoveu inúmeras marcas históricas com base em sangue e tortura – tudo muito distante do início de sua prática nas pequenas comunidades de fé. Facilmente há que se identificar as cruzadas, quando europeus do Ocidente marcharam para conquistar e sobrepujar Jerusalém. Também é possível lembrar-se da inquisição e suas fogueiras condenatórias de mentes e corpos.

Porém, passados esses tristes episódios, mantém-se latente um discurso odioso bastante diferente do que é pregado pela figura que inspirou a religião. Não é difícil encontrar saudosistas das Cruzadas, travestidos em trajes medievais e militares. Também não são raros os comentários hostis em páginas nas redes sociais que aludem à inquisição e desejam sofrimento, morte e dor ao outro sem nenhuma demonstração da piedade, tão defendida por Jesus.

Encontrar a resposta para essa dissonância certamente não é tarefa das mais simples. Exigiria vários estudos, desde o campo das ciências da religião, até a teologia, a linguística ou a antropologia. Algumas pistas, talvez, possam ajudar. Muitos líderes inspiram-se, de modo descontextualizado, no Deus do Antigo Testamento. Outros, de modo incisivo, arrebanham seguidores no discurso fácil do inimigo comum e na personalização do diabólico em pessoas, grupos ou instituições. Despertar o ódio é uma tarefa mais fácil, rápida e, com toda certeza, mais lucrativa do que despertar o amor e a tolerância.

De fato, dar a outra face não parece ser um discurso que mobilize multidões em um primeiro momento. Portanto, usa-se a força histórica do que é divino, dando a Deus um discurso distorcido daquele que fora propagado por Jesus de Nazaré. E o ódio e a violência não se dão apenas de forma exógena. As agressões internas entre grupos da mesma religião, sobretudo no catolicismo, têm sido uma prática comum.

Grupos ligados à Teologia da Libertação, como a Pastoral da Juventude e as Comunidades Eclesiais de Base, são abertamente atacados por celebridades cibernéticas de nicho ultraconservador. Do inferno à fogueira ainda neste mundo, os seguidores que se autopropagam cristãos verdadeiros destilam toda sua repulsa a quem professa a mesma fé. Ataques intolerantes e ações coordenadas expõem visões racistas e de forte caráter agressivo.

A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) convive com os ataques gratuitos e a negação de muitos grupos às suas ações, como a Campanha da Fraternidade, boicotada em muitas paróquias e movimentos pelo país. Em 2018, aliás, a campanha aborda a segurança pública e instiga os fiéis a pensarem uma sociedade que não combata violência com mais violência – exatamente no momento em que cresce o apoio ao discurso armamentista e ocorre o início de uma intervenção militar no Rio de Janeiro.

Chega o momento em que as igrejas cristãs precisarão repensar seu discurso e sua prática. Na contramão do pacifismo de Jesus e do discurso de grandes lideranças, como do Papa Francisco, larga parcela de fiéis caminham para o apoio a massacres, pena de morte, armamentismo e torturas. Muitos o fazem em nome de Deus. Encontrar a raiz desse disparate é tão importante quanto enfrentá-lo, na medida em que o Brasil, sobretudo, vê crescer a violência de forma desordenada.

Não são somente as armas que matam e ferem os mais fracos, mas também as palavras que perpetuam discursos e cultura de morte. E é aí que reside o perigo de alimentar um cristianismo intolerante e puritano, que enxerga no diferente a personificação do diabólico e que, por isso, julga merecer um ódio combatente. As redes sociais amplificam a coragem dos “novos cruzados”, saudosistas do que não viveram. Esses “cavaleiros cibernéticos”, orientados por alguns generais de batina, defendem, de modo ferrenho, o modelo de instituição em que acreditam, sem discutir as palavras de Jesus e sem pestanejar em condenar os que se enfileiram nos mesmos templos, mas que, por não compactuarem com seu comportamento pré-conciliar, recebem uma excomunhão particular, que é dada ilimitadamente por quem se autointitulou “portador da verdade”.

Jesus de Nazaré agiu de modo bem diferente do que muitos de seus seguidores pregam atualmente. É apenas uma parte, porém, uma parte crescente. São católicos e evangélicos que se esqueceram dos ensinamentos pacifistas e se alinharam aos apedrejadores ironizados pelo Mestre que pretendem seguir. Numa sociedade cada vez mais violenta, a religião vai sucumbindo à lei do “olho por olho e dente por dente”. Paradoxalmente, é no meio religioso que se deve plantar a discussão social e humanitária que propague uma sociedade que luta por justiça e não por vingança: desafio diário de quem crê na paz e na superação da violência.

Por: Vinícius Borges Gomes

Um pouco sobre o livro que Leonardo Boff levou para Lula na prisão

“Sentir e compartilhar a dor com os pobres pode ser uma grande escola revolucionária e libertadora ”

Ao tentar visitar o presidente Lula, o teólogo e filósofo, Leonardo Boff, entregaria dois livros ao amigo: um de sua autoria, “O Senhor é Meu Pastor – Consolo Divino para o Desamparo Humano”, e um outro com o título, “A missão do povo que sofre – tu és meu servo!”,  de autoria  de Carlos Mesters, frade carmelita, de origem holandesa,  e um dos principais estudiosos bíblicos do método histórico-crítico. Esse último título mexeu com as minhas memórias e me fez tirar do baú lembranças afetivas e reflexões sobre o papel do cristianismo na vida dos empobrecidos e de lideranças políticas do nosso país.

O livro de Mesters remete ao contexto do Cativeiro da Babilônia, aproximadamente 590 a.C , período em que as elites hebraicas foram aprisionadas à mando do  imperador Nabucodonosor. O motivo foi a recusa do rei Joaquim de Judá em pagar tributos ao governo babilônio.  É um período que expressa as contradições da comunidade hebraica, impõe a necessidade de pensarem sobre os ensinamentos deixados pelos antepassados e o projeto de sociedade a ser defendido:  de acomodação aos privilégios de uma minoria ou de libertação dos pobres diante das estruturas de opressão.  O sofrimento do povo hebreu e do povo brasileiro são as molas propulsoras para as reflexões do frade carmelita.

A história do livro começa quando Mesters fez uma visita ao Pe. Alfredo Kunz, carinhosamente conhecido por Alfredinho. Esse, nascido na suíça, serviu o exército francês durante a Segunda Guerra, tornou-se prisioneiro dos nazistas num campo de concentração da Áustria, onde trabalhou como cozinheiro, passou a estudar a Bíblia e dar assistência aos doentes. Em 1954 foi ordenado padre na cidade de Paris. 1968 veio para o Brasil porque se dispôs a ajudar os pobres fora da Europa. Foi morar na cidade de Crateús-CE, onde viveu intensamente a caridade junto aos empobrecidos do semiárido nordestino. Mais tarde migrou para  São Paulo, onde passou a viver com as pessoas em situação de rua na cidade de Santo André.  Tinha no livro do profeta Isaías e na imagem do “servo sofredor” suas principais referências para compreender a vida dos pobres. O sofrimento que vivenciou e partilhou o levou a fundar a Irmandade do Servo Sofredor.

Em 1976, ao receber em casa o estudioso carmelita, Alfredinho sofria de fortes dores na coluna, proporcionada por uma hérnia de disco.  Segundo Mesters

“a dor entrou nele como a água entra numa esponja. Isso já durava cinco dias e cinco noites, sem parar um só instante. Deitado na cama, ele me disse:  esses dias fiquei pensando muito no sofrimento. Que sentido vou dar a esta dor, da qual não escapo nem vejo o porquê? Você sabe? Garanto a você que neste Brasil tem muita gente como eu. Gente que apenas sofre, sem porquê e sem saber porquê!”.

O padre associou a dor dos pobres ao personagem do livro do profeta Isaías, lembrando que o povo brasileiro era chamado a ser “ servo sofredor”, através do qual a justiça e a libertação seriam efetivadas. Nesse momento ele questionou, “você entendeu o que eu quero dizer?”.  Com os olhos fixos para o exegeta da Bíblia, disse:

sua cara me diz que não me entendeu. É que você não está sofrendo o que eu sofro nem o que o povo sofre. Você só tem ideias sobre o sofrimento, mas não tem o sofrimento. Aquilo que acabo de dizer pode parecer loucura ou escândalo, como foi loucura e escândalo a cruz de Cristo. Mas o sofrimento tem que ter um sentido! Na luta pela justiça e pela fraternidade dever haver lugar para todos! (…)”

Foi assim que sugeriu ao carmelita o estudo do livro profético e que, em sintonia com as dores do povo,  escrevesse a obra “A Missão do povo que sofre”. Porém, o advertiu:

“Mas tome cuidado! Não entre nunca sozinho na Bíblia. Você se perderia e não encontraria nada. Leve consigo na sua lembrança a dor do povo a que pertence!”.

Durante cinco anos Mesters viajou o país com suas palestras e cursos junto às comunidades eclesiais de base e testemunhou muitas histórias de sofrimento. Seus estudos e experiências mostram que as lamentações e dores dos hebreus no tempo do cativeiro são atualizadas nas dores dos pobres espalhados pelo Brasil. As histórias que conta no seu livro traduzem o sofrimento de muitos nordestinos que saíram do cativeiro da fome em direção às ilusões metropolitanas, marcadamente durante os anos 50 aos 70.

É nesse percurso histórico que Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindú, com os seus sete filhos, fogem da seca e da fome em Pernambuco e vão para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Dentre os seus filhos, Luís Inácio da Silva,  o Lula, virou operário de fábrica e tornou-se uma das maiores lideranças sindicais e políticas do Brasil.

De formação católica e muito próximo aos religiosos da Teologia da Libertação, Lula bebeu da mesma fonte que animava as comunidades eclesiais de base:  sofrimento, sabedoria popular e fé. Sofreu e aprendeu com a dor dos pobres. Lutou, resistiu, e quando pôde, como Presidente da República,  ajudou milhões de brasileiros a se libertarem do sofrimento.

Lula cometeu erros e equívocos quando se encantou com os benefícios dos senhores da “babilônia brasileira”. Hoje é punido e está no cativeiro, não pelos seus erros, mas por sua opção preferencial pelos oprimidos. Muito provavelmente conheceu Alfredinho em Santo André. Possivelmente participou de alguma formação orientada pelas ideias do Carlos Mesters.

O golpe midiático-parlamentar-empresarial que derrubou o governo da presidenta Dilma e impôs o governo ilegítimo de Michel Temer, mostra que a dignidade do povo pobre e sofredor está sendo aprisionada no cativeiro neoliberal e fascista. Somente uma liderança que vivencia e compreende o sofrimento pode representar a maioria do nosso povo. É por essa razão que o Lula expressa a luta do “servo sofredor”. Por isso, também, tão odiado pelas forças do capital e do fascismo,  estimulados pela tríade:  Globo, Moro e  Lava Jato.

Porém, muito mais que o Lula, quando cada pobre sofredor expressar sua indignação contra os cativeiros em operação nesse Brasil do golpe, a justiça deixará de ser conduzida pelos setores que historicamente desdenha e explora quem sofre.  Talvez por esse temor a juíza, morista, Carolina Lebbos,  não tenha permitido a visita do ativista dos direitos humanos, agraciado com prêmio Nobel da Paz,   Adolfo Pérez Esquivel, 86 anos, e do téologo Leonardo Boff, 79 anos.  Esse, sabiamente, reagiu denunciando a falta de humanidade e a prepotência de uma juíza terrena diante do juízo divino.

Quando iniciei minha atuação na Pastoral da Juventude do Meio Popular tive oportunidade de participar das aulas do frade carmelita. Nessa época as comunidades e pastorais ainda compartilhavam um pouquinho daquela atmosfera do Concílio do Vaticano II.  A forma simples de como o velho frade contava a história da Bíblia e do povo nunca saiu da minha memória.  Relendo “A missão do povo que sofre” pude reaquecer as lembranças.

Em meados dos anos 90 conheci Alfredinho, quando foi tratar da sua saúde no Recanto Madre Paulina (Petrolina-PE). Com a cabeça tomada pelos cabelos brancos, beirava os 80 anos. Singelo, sábio e de ternura radiante,  concedeu-me uma entrevista que até hoje guardo numa velha fita K7. Falou das suas experiências e lutas, denunciou o imperialismo, origem da maior parte dos sofrimentos.

Nesses tempos de desorientação e crise política, fico com a lição desses  profetas: sentir e compartilhar a dor com os pobres pode ser uma grande escola revolucionária e libertadora.

Lula Livre! Marielle Vive!

 

Referências:

BAVAREL, Michel; SILVA, Nara Rachid. Se você soubesse a alegria dos pobres.São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2014.

MESTERS, Carlos. A missão do povo que sofre. Petrópolis: Vozes, 1994.

 

*Gilmar Santos é professor de História e vereador (PT) em Petrolina-PE.